O poetinha e o Uruguai

Sábado celebramos o centenário de Vinícius de Moraes, uma figura da história brasileira que tenho especial admiração. 

Gosto dos seus versos, gosto da bossa, da simplicidade, da boemia e dos contos da vida. 


Vinicius de Moraes Uruguai

Mas o que eu não sabia até pouco tempo atrás era que ele também tinha uma relação com o paisito, chegou a viver um tempo em Montevideo.

Vinícius se formou em Direito e prestou carreira diplomática durante muitos anos, em paralelo escreveu livros, crônicas, poemas, colunas em jornais, estudou cinema, produziu filmes. E ainda cantou e compôs canções que emocionaram gerações em todo o mundo.

Sua mudança ao Uruguay ocorreu no final do ano 1957 devido a compromissos com a diplomacia, ele foi transferido para a Embaixada do Brasil e permaneceu no país até 1960.

Descobri essa passagem na história do Vinícius quando vi que a pracinha do meu bairro era uma homenagem a ele. Uma pracinha modesta, pequenina, com alguns balanços a caminho do mar. Pena que perdi as fotos, vou ficar devendo.

Outra curiosidade que achei o máximo foi saber que a tal casa muito engraçada que não tinha teto, não tinha nada que cantei toda minha infância, existe! E é nada menos que a fantástica Casa Pueblo.

O verso original terminava assim: Mas era feita de pororó / Era a casa de Vilaró.  

Vinícius e o artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró eram amigos, o brasileiro frequentava a Casa Pueblo e numa dessas visitas ele improvisou versos para entreter as filhas do artista, o resultado da brincadeira ficou registrado na canção.

Hoje visitando a casa encontramos a homenagem de Páez Vilaró: um dos quartos foi batizado com o nome do nosso poetinha.

Nos anos que passou em Montevideo, Vinícius morou num apartamento no bairro de Pocitos, lá ele escreveu a música A Felicidade, várias prosas e poesias. 
"Também eu deixava-me estar no terraço de meu apartamento, um dos mais altos de Pocitos: (...) eu por minha vez, ante a ideia de compartilhar com a bem-amada a visão dos amplos espaços crepusculares do estuário do rio da Prata, e de rodeá-la, com meus braços dentro das iluminações do poente oriental, punha-me, tal um menino que, ai de mim, já não sou mais, a tamborilar com os dedos e a cantar com ela alegres sambas do meu Rio, que não é da Prata nem do Ouro, mas que é cidade de muito instante, e em hoje mora, em casa única, o meu antes triste e multifário coração."

Após esse período servindo ao Itamaraty, ele continuou marcando presença em território uruguaio e argentino.

A escritora Liana Wenner lançou o livro chamado Nuestro Vinicius, onde conta detalhes da vida do poetinha em ambos países. 

Ele era aclamado pela classe artística rio platense, participava de especiais na televisão, seus livros ficavam entre os mais vendidos, os shows lotados. 

Ele fez muitos amigos, dizem que era um traço marcante do Vinícius essa facilidade de envolver-se com as pessoas, e muitos amigos do Brasil foram visitá-lo. A escritora conta casos de encontros com Maria Bethânia, Chico Buarque, Maysa, dentre outros, na casa dele em Mar del Plata, balneário argentino.

Vinicius também teve seus amores por essas bandas, é claro. A oitava esposa foi a argentina Marta Rodríguez, eles se conheceram em Punta del Este.

O livro já foi traduzido ao português e o título ficou Vinícius Portenho, achei um tanto contraditório, já que toda resenha e sinopse retrata as temporadas que ele passou na Argentina E Uruguai, a própria autora mostrou que é mais apropriado falar da influência dele em território rio platense - que abarca ambos países obviamente - mas ok, pulamos esse detalhe e focamos no conteúdo do livro rs. 

Em Montevideo fui apresentada ao show de Vinícius no La Fusa, um café cultural em Buenos Aires onde ele costumava se apresentar com Toquinho e Maria Creuza na década de 70, o registro é um clássico na região e entrou na lista dos meus discos preferidos. 

E desse jeito conheci o Vinícius deles, o Vinícius nosso. A vida é mesmo a arte do encontro...

Abraço! ;)


12 comentários

  1. Mile, sensacional esse post. O Vinícius é mesmo a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida.
    Como você disse, ele era tão fácil de fazer amigos que eu o conheci numa pastelaria em Juiz de Fora por causa de um comentário sobre o calor. Acabou que arrumaram uma mesinha num canto da pastelaria e lá passamos a tarde conversando e tomando cerveja (ele preferia Whisky, mas a saúde pedia coisas mais fracas, então em homenagem ao calor ia a cerveja mesmo!).
    Tem muita coisa nesse seu post que eu não sabia e até achei interessante que ele está sendo mais lembrado por aí do que aqui no Brasil. As músicas dele tocam e já não se fala mais da capacidade poética ligada a ele. Enfim fiquei muito feliz ao ler esse post e vou correr atrás desse livro também.
    Valeu, Mile!
    Um abraço grande,
    Manoel

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    1. Manoel, sensacional mesmo é essa sua história, passar uma tarde de papo com o Vinícius!

      Pois é, só soube dessas coisas morando no Uruguay rs! Ainda não li o livro, mas está na minha lista.

      Abraço! ;)

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  2. Olá Mile,
    Sou casado com uma pediatra e temos muita vontade de morar em Punta del Leste. Vc saberia nos informar quanto recebe, mais ou menos, um pediatra aí no Uruguai? Desde já te agradeço.

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    1. Olá Alexandre!

      Não sei dizer a média de salário, mas antes de atuar como médica, acredito que sua esposa precisa revalidar o diploma no país, não é um processo rápido.
      Melhor se informar junto à Universidad de la Republica - há um post sobre revalida aqui no blog também - e Conselho de Medicina no Uruguai.

      Abraço!

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  3. Que encanto esse post! Eu estava justamente procurando informações sobre Uruguay (quando encontrei esse blog) porque enfiei na minha cabeça que quero morar lá! E, coincidência ou não, essa semana estou imersa em estudos sobre o Vinicius de Moraes para eventos que acontecerão no dia 5 de Novembro (Dia da Cultura) em homenagem à Vinicius. Esse post uniu o útil ao agradável. Estou com mais vontade ainda de morar no Uruguay!!

    Abraços, Mile!

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    1. Oi Carine!

      Muito obrigada pela gentileza! ;)

      Que coincidência, hein? Eu adorei ir descobrindo essa relação do Vinicius com o Uruguay.

      Boa sorte com as ideias da mudança, se eu puder ajudar com mais informações, só falar!

      Abraço!

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  4. Acabo de descubrir tu blog y lo voy leyendo de a poquito, has publicado mucho, y todo lo que he leído me gusta; me gusta esa mirada desde otro lugar, subjetiva sí pero también real. Amo a mi país, y me gusta que a los extranjeros, turistas o inmigrantes también les guste. Por lo que he visto entiendo que ya no está más aquí en Uruguay, espero que sigas escribiendo igual sobre el paisito. Y sobre Vinicius, aquí te dejo una entrada de mi blog acerca de un viejo disco de vinilo comprado en la calle:http://unfrionegro.net/vinicius-de-moraes-en-la-fusa/
    Saludos!

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    1. Hola!

      Muchas gracias por el comentario!

      La verdad me encanta Uruguay, aprendi un montón en los años que ahí estuve, no sé si se puede llamar solamente suerte, pero me crucé con gente muy amable y acogedora.

      Escribir sobre el pais con esta mirada extranjera y ver el interés de la gente por descubrirlo es algo que disfruto muchisimo.

      Las ganas de escribir venian cada vez que me preguntaban: 'y como es la vida ahí en Paraguay?' jaja si, lamentablemente suele suceder de la gente creer que es todo lo mismo.

      Estoy de regreso a Uruguay ahora en enero. Ya voy a leer tu blog! ;)

      Saludos!

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  5. Mile, que maravilha isso tudo, né?! Qdo fui à casa pueblo fiquei encantada com a homenagem! Não sabia que ele tinha morado no paisito! Legal! :-)

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    1. Legal, né? Adorei saber dessa conexão do Vinicius com o Uruguay! ;)

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  6. Triste com o falecimento de Vilaró que deixa órfão o Uruguai!!

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  7. Oi, Mile. Muito bom o teu blog. Apesar de amar o Brasil não vejo o meu futuro aqui. Qual na tua opinião seria a melhor cidade do Uruguai para se viver na velhice? qq informação me seria muito útil. Grata.

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