Um papo sobre emprego no Uruguai

Uma das dúvidas mais comuns sobre a vida no Uruguai diz respeito a empregos.

Muita gente quer saber como é na área X, quanto é a média salarial, como estão as oportunidades, se dá para viver bem trabalhando de tal coisa, etc.

É difícil responder essas questões com precisão, primeiro porque não tenho tempo para avaliar o mercado em todas as profissões para todo mundo que pede; segundo porque depende da sorte e CV de cada um; terceiro porque há fatores subjetivos nessa história, aquela coisa do parâmetro pessoal para definir o que é bom ou ruim.

Em linhas gerais, encontrar emprego no Uruguai não é difícil, difícil mesmo é encontrar emprego que ofereça uma remuneração superior a 20 mil pesos líquidos quando se é estrangeiro e recém chegado. 

Portanto, jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver um salário acima dessa média.

Basicamente o caminho que 8 em cada 10 brasileiros traçam quando chegam aqui sem contatos ou contrato de trabalho prévio, é iniciar no mundo das empresas de call center que prestam serviços de atenção ao cliente em português. 


Emprego e Trabalhar no Uruguai

Há bastante oferta e constantemente estão buscando gente (até porque o índice de rotatividade nesses empregos é altíssimo). Logo, se você tiver procurando 'qualquer coisa' acredito que em menos de 2 ou 3 meses você estará empregado.

Mas aí entra essa questão do critério, é isso que você quer para sua vida? Não era o que eu queria para a minha. Cheguei cheia de esperança, com o coração aberto para fazer qualquer coisa até ter uma base para encontrar meu lugar ao sol

Acontece que o tempo passava e o tal lugar ao sol não chegava, por mais que tentasse não conseguia sair desse mundo de atenção ao cliente e a sensação era que estava sujeita a trabalhar com português para o resto da vida no paisito, independente do que fizesse ou tivesse estudado. 

E francamente, isso era frustrante! Frustante porque no meu caso sabia que não estava aqui de passagem curtindo um ano sabático, sabia que podia render muito mais e sabia que tinha as ferramentas necessárias - conhecimento, formação - para estar desempenhando outras funções.

Só permaneci aqui porque tive apoio emocional e financeiro, pois apesar da dificuldade na vida profissional, as outras experiências que estava vivendo me davam um certo equilíbrio. Eu não tinha uma família para sustentar, tinha tempo e meios para esperar o jogo virar.

A gente sabe que cada caso é um caso e que a sorte de Chico não é a de Francisco, mas não acho tão simples estrangeiros conseguirem oportunidades no Uruguai na sua área de formação

As pessoas sempre querem saber como é na área "X", mas de acordo a realidade que vivo aqui, observo que o problema não é a falta de trabalho em si, claro que é preciso entender que estamos falando de um mercado pequeno e com ofertas mais restritas, mas o que me incomoda mesmo é falta de oportunidade, é sentir pouca abertura para mostrar seu valor. 

Eu devo ter mandado centenas de cvs para distintas empresas/cargos nesses anos, mas o que não envolvia "português" eu não recebia nenhum retorno, se o trabalho não tinha o idioma como requisito eu era descartada antes mesmo de chegar a uma entrevista e poder vender minhas habilidades. Conviver com essa limitação do mercado e manter a serenidade é bem difícil.

Mas hoje está melhor do que 3 anos atrás, por exemplo. Hoje, num universo de 20 brasileiros que eu conheço morando no Uruguai, já posso citar 2 ou 3 que conseguiram trabalho independente dessa relação direta com o idioma, ou seja, empregos que não precisam do português, que não são para trabalhar em negócios de brasileiros ou com/para brasileiros. 

Eles conseguiram um emprego no Uruguai como uma pessoa daqui simplesmente conseguiria, parece tão simples a ideia de 'morar num lugar- trabalhar no que eu sei fazer', mas quando a gente avalia vê que essa trajetória requer um pouco mais de cuidado e paciência.

Há áreas que tendem a oferecer melhores oportunidades, como TI, comércio exterior e engenharia em geral.

É importante também levar em conta que a mudança para o Uruguai não é uma mudança de bairro ou Estado, para exercer sua profissão legalmente é preciso estar com o diploma revalidado e esse processo demora facilmente um ano (demora, é burocrático, mas não é impossível, a Vanessa que colaborou no post de Outras Histórias de Brasileiros Morando no Uruguai, é um exemplo de brasileira que conseguiu ter o título reconhecido pela Udelar, agora ela já pode trabalhar como psicóloga no Uruguai). 

Claro que há casos e casos, um profissional de TI vai conseguir trabalho sem a necessidade do título pela demanda de mercado e características da área, mas um profissional de saúde conseguir burlar essa exigência é bem complicado, né? Imagina se uma clinica séria vai arriscar contratar médico, enfermeiro, dentista sem o título?

A boa notícia é que nosso bloco econômico Mercosul está publicando normativas e resoluções para a revalida direta de diplomas de determinadas profissões, o que quer dizer que esse processo será muito mais simples e curto no futuro. Mas daí a ver os empregadores e recrutadores incorporando esse sentido de união latina e intercambio de profissionais no dia a dia são outros quinhentos.

Depois tem um tema que pouca gente dá atenção: o espanhol. Sim, minha gente! Não tem essa história de é parecido, é fácil e não rola querer um emprego bacana com portunhol, com "entendo mais ou menos" ou "se falam devagar consigo me virar". 

Isso não quer dizer que a pessoa tem que chegar aqui com um espanhol perfeito e não cometer erros, mas é preciso levar a sério essa questão do idioma e saber se articular, manter uma conversa formal numa entrevista, por exemplo. 

Sem a fluência no espanhol é muito complicado conseguir algo na própria área de formação, já para empregos com requerimento de português é até possível conseguir a vaga no embromation

Mas, não custa refletir, você dono de um escritório/empresa contrataria alguém - seja para o cargo de gerente ou de secretária - caso não pudesse se comunicar razoavelmente? 

Em relação a remuneração, não vejo um cenário de grandes salários (claro que há altos cargos executivos em multinacionais que pagam maravilhas, mas é um caminho longo, pouco provável encontrar um imigrante aos 30 anos ocupando um cargo desse). Um salário líquido de 35 mil pesos já pode ser considerado uma remuneração muito boa, ganhar 50 mil pesos líquidos sendo empregado não é a coisa mais comum, fique muito feliz se receber uma proposta desse nível. 

Aí você quer saber se contando com essa média de 12 a 20 mil pesos que o 'mercado português' oferece dá para viver bem em Montevidéu ou quanto seria suficiente para levar uma vida boa na cidade. Olha, de novo depende do seu critério do que é bom ou ruim. 

No padrão de vida que eu tenho, se fosse para morar sozinha - e pagar contas sozinha - ganhando 20 mil pesos seria impossível. Também não dá para pensar em sustentar uma família - mulher e filho(s) - com essa grana, mesmo vivendo apenas com o básico. 

Agora se você pensa em dividir casa e contas no esquema estudante/intercambista/casal sem frescura, esse valor dá para passar o mês. Já morar sozinho só será possível dependendo das suas escolhas, fica apertado, bem apertado eu diria, mas com sorte dá para alugar um monoambiente no Centro (seria uma kitnet pequena de 20 ou 25m²) e se virar com uns 18, 20 mil pesos por mês. 

A dica é fuçar os sites com ofertas de imoveis, trabalho, mercado, lazer, os posts da categoria Viver no Uruguai aqui do blog e ir tendo uma noção do que se encaixa nas suas necessidades. 

Analisando friamente, tentar a vida no Uruguai não é tão fácil como parece quando lemos as notícias sobre o país nos jornais ou quando estamos aqui numa tarde de passeio pela rambla, mas pode ser uma experiência prazerosa. 

Eu acredito que deve ser uma decisão pautada muito mais em fatores como viver num lugar mais tranquilo, um lance de identificar-se com a cultura e curtir novos ares do que uma busca por novas oportunidades de trabalho ou construção de uma carreira de sucesso.  

Infelizmente não tenho como definir como será a história de cada um que pensa em aventurar-se em terras charruas, não pude prever nem minha própria história rs, muita coisa aconteceu diferente do que eu tinha planejado nessa questão trabalho no Uruguai, mas ainda assim aqui estou e só posso desejar que vocês tenham muita sorte e dedicação nos próximos passos. 


Abraço! :)



Atualização:

O post rendeu muitos e-mails que não consigo responder com a atenção que gostaria, então para facilitar vou deixar minha opinião sobre as dúvidas mais comuns que surgiram:

- Sou formado na Universidade X, trabalhei na empresa Y, será que consigo algo melhor?

Eu não consigo prever, gente! O que posso dizer é que a falta de oportunidades não está necessariamente ligada a um CV pobre, é claro que quanto melhor o seu CV, mais ferramentas para gerar chances você terá. 

Os exemplos que tenho no meu meio são de pessoas com formação em universidades de qualidade, tanto públicas quanto privadas, ainda assim a dificuldade para encontrar trabalho se fez presente na trajetória da maioria e é um detalhe a ser levado em conta.

- Quero morar aí, mas não quero passar necessidade. O que eu faço?

A remuneração dos empregos do 'mercado português' gira em torno de 12 a 20 mil pesos. Não tenho como dizer se cada um vai conseguir algo diferente, na própria área de formação ou que pague mais do que isso, ou ainda se com esse valor irá conseguir levar uma 'vida boa no Uruguai'. 

- E no resto do país seria mais fácil?

O custo de vida no interior é mais baixo, mas o mercado de trabalho é menor. Em Montevidéu há essas empresas de call center que oferecem trabalho frequentemente, sair da capital é de certa forma abrir mão dessas possibilidades que costumam ser a porta de entrada no mercado de trabalho uruguaio para estrangeiros recém-chegados.

Boa sorte a todos! :)


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Onde fica o letreiro com o nome de Montevideo

Outro ponto super bacana para fotografar a cidade! :)

Eu não resisto a um click quando passo por aí e sempre que coloco uma foto nas redes (facebook ou instagram) as pessoas me perguntam em qual lugar exatamente fica o letreiro.

Se você ainda não segue a gente e não sabe onde ficam as letrinhas que formam o nome de Montevideo, agora te conto! ;)

O local é bem fácil de achar, fica no bairro de Pocitos, ali na Rambla República del Peru e tem como ponto de referência o Espaço Kibon.

Letreiro com nome de Montevideo

A história do simpático letreiro começou em março de 2012 quando a cidade recebeu a Assembléia de Governadores do BID e a prefeitura disponibilizou duas placas de boas vindas aos participantes: uma ficava próxima ao aeroporto e dizia 'Bienvenidos', a outra ficava na rambla de Pocitos formando a palavra 'Montevideo'.

Essa paisagem durou apenas algumas semanas, quando eu pensei em fotografar, o letreiro já havia sumido. Sim, as letras foram desaparecendo! Alguns cidadãos pensaram que seria divertido levar as peças para casa ou destruí-las parcialmente. 

Então no mês de maio, em meio a discussões sobre custos de segurança e manutenção, resolveram dar fim ao que sobrou das letras.

Mas o letreiro na orla tinha agradado tanto que a prefeitura decidiu colocá-lo novamente. Dessa vez foram mais precavidos e abriram licitação para que a obra fosse realizada com materiais mais sólidos e pintura antigrafite.

Logo depois, o novo letreiro - feito de concreto e instalado sobre uma base de cimento - estava brilhando na rambla montevideana, fazendo a alegria de turistas e locais.

Ao todo são 15 metros de comprimento e 2 metros de altura, muita gente sobe/pula/senta nas letras para fazer fotos de um dos cartões postais mais bonitos da cidade. Quase sempre tem gente lá, mas esperando um pouco dá para tirar foto com Montevideo só para você rs!

Gosto muito da paisagem pela manhã, mas a qualquer hora do dia é bonito, inclusive a noite quando acendem as luzes e as letras ficam em destaque.

Onde fica o letreiro de Montevideo

Quem estiver em Montevidéu durante a Copa do Mundo verá o letreiro na cor azul celeste (originalmente ele é pintado na cor branca), uma ação da prefeitura em apoio à seleção uruguaia sob o tema: “¡Cuando juega Uruguay, todos somos celestes!”. 

Onde fica o letreiro de Montevideu
                                                    Foto: Diário El Pais

Mais um lugar para incluir na lista do que fazer em Montevidéu.


Abraço! :)

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Roteiro em Montevidéu: Uma tarde no Centro e Ciudad Vieja

Mês passado recebi amigos em casa e além da alegria de rever pessoas queridas, essas visitas rendem ótimos passeios na cidade.

Sempre dou um jeito de turistar junto e acabo revisitando cantinhos que gosto bastante e muitas vezes aproveito para conhecer lugares novos. 

Passamos uma tarde tão bacana que achei que valia a pena compartilhar nosso roteirinho no blog. 

Saímos de casa com pouca coisa definida, os amigos eram daqueles bons de viagem, gente sem frescura e com muita energia e vontade de descobrir o mundo, sabem? Tinhamos muitas opções no caminho que despertavam interesse: museus, galerias, lugares para fotografar, para provar comidas, observar o cotidiano, etc.

Pegamos o ônibus 104 aqui na porta de casa com destino ao Centro de Montevidéu. 

O trajeto já é quase um passeio, por meros 22 pesos de passagem fomos curtindo a rambla de Malvin, passamos pelo Puertito Buceo com todos os barquinhos fazendo graça num dia bem ensolarado e fresco, seguimos por Pocitos, cruzamos a Boulevard Artigas e caímos no Centro, mais especificamente na famosa Avenida 18 de Julio. 


Na Avenida 18 de Julio é um prazer ir observando aquele ritmo de centrão: muitas lojas, prédios comerciais, barraquinhas de rua, gente indo e vindo, a rotina deles acontecendo ali. 

E da janela do ônibus já podemos nos perder nos detalhes dos edifícios antigos, é notório que muitos estão precisando de cuidados, mas há tantos e tão lindos. Os entendidos definiriam Neoclassicismo, Art Decó, Modernismo, etc, eu leiga só me deixo levar pelo prazer de contemplar o charme e a beleza das construções. 


A parada da esquina Ejido foi se aproximando e descemos rumo a primeira atração do dia: o Mirador de la Intendencia

Pegamos os tickets na Oficina de Informaciones Turísticas e seguimos para o elevador panorâmico. Do alto do piso 22 a vista nunca decepciona: Montevideo aparece encantadora com o majestoso Rio de la Plata de um lado, prédios e ruas arborizadas do outro.

É ótimo para ter uma noção da cidade e fazer muitas fotos. E é grátis, você encontra mais informação nesse outro post

Ainda no prédio da Intendencia tem uma galeria fotográfica da CdF e o Museu de História da Arte, atrações também gratuitas.

Nós pulamos a galeria e o museu e fomos andando em direção a Ciudad Vieja. No caminho está a Fuente de los Candados, a esquina mais romântica do centro e lá nos distraímos com os cadeados e mensagens dos apaixonados. 

Não deixamos nossa marca na fonte, mas você pode se divertir procurando um espaço para prender um cadeado e guardar seu amor por toda eternidade. Diz a lenda que isso garante que o casal voltará a Montevideo, quem sabe na lua de mel ou bodas de papel!? ;)

Mais alguns passos e chegamos a Plaza Cagancha e Mercado de los Artesanos, se você gosta de artesanato é uma boa parada, aí é um dos melhores lugares para comprar souvenirs.

Do Mercado de los Artesanos até a Plaza Independencia é um pulo, o Palácio Salvo dá a dica que estamos perto da praça e das muitas atrações da Ciudad Vieja.


No centro da praça está o Monumento a Artigas, uma construção que foi aprovada em 1882, mas só foi inaugurada em 1923!

Resumindo absurdamente história, buscando apenas dar uma noção básica da importância de José Artigas, ele é considerado o 'máximo prócer do Uruguay', 'el padre de la Pátria Oriental', tido por muitos como a figura mais ilustre da nação em razão da sua atuação nos movimentos de independência. 

E aí sob a estátua se encontra o mausóleo com os restos mortais do General Artigas. Confesso que nunca entrei, acho um tanto mórbido, mas está aberto a visitação para quem tiver interesse em conhecer.

Daí da praça atravessamos a rua e fomos visitar o Museo de la Casa de Gobierno, conhecido também como Palacio Estévez. 

Esse museu presta homenagem a democracia uruguaia e aos presidentes da república de distintas épocas. A entrada é gratuita e a visita não é guiada, eles entregam um panfleto com as informações e cada um se vira

No dia que fomos foi difícil se concentrar na leitura porque tinha uma funcionária possuída pelo ritmo ragatanga aos gritos no telefone supostamente porque um colega de trabalho estava bancando o espertinho pra cima de todo mundo. Sério, de todos os cômodos do museu - que é pequenino - ecoava a voz da criatura.

Meu panfleto dizia que o percurso no museu era iniciado pela sala 'Nascimento da Nação', simbolizada pela espada de Artigas e pintura de Manuel Blanes representando o Escudo Nacional.

Depois haviam outras salas dedicadas aos presidentes com seus objetos pessoais, uniformes de gala, fotografias e móveis. E a coisa mais bizarra: um cachorro! Fiquei tão passada ao ver o bicho morto numa caixa de vidro que não consigo lembrar a qual presidente o animal pertencia. Nas salas seguintes são exibidos objetos do cerimonial do Estado, como louças, faixas, mais fotografias e um vídeo.

Curiosamente o querido Mujica ainda não tem a cara estampada nos quadros, sendo o presidente em exercício, o personagem mais recente do museu é seu antecessor Tabaré Vázquez.

Terminada a visita, atravessamos novamente a praça, cruzamos o Portal de la Ciudadela e começamos a explorar a Ciudad Vieja caminhando pela Peatonal Sarandí.


Passamos pela praça e igreja Matriz, mas a fome já apertava e fomos procurar onde comer. 

A maioria das pessoas quando vão a Ciudad Vieja almoçam no Mercado del Puerto, mas minhas últimas experiências não foram assim tão legais e aproveito para dizer que existem também bons restaurantes nas redondezas, inclusive oferecendo as famosas carnes uruguaias no menu.

Como é o caso do Estrecho, um restaurante que se você não estiver atento, passa pela frente e não vê. Uma fachada azul literalmente estreita, sem parafernálias chama-cliente, mas que deixou nosso dia muito mais gostoso. 

A proposta do lugar me agrada, não tem mesas, você come sentado nos banquinhos no balcão vendo todo o movimento do pessoal cozinhando. 


Não é o lugar mais barato, os pratos custam seus 300 e poucos pesos e não aceitam cartão, mas o cardápio é bem elaborado e a apresentação cuidadosa. Todos pedimos carne e ficamos super satisfeitos com o sabor, maciez e ponto. 

- Mas Jamile, então você quer dizer que o Mercado del Puerto não vale a pena? 

Não é isso que quero dizer, o Mercado é legal e vale a visita, principalmente se é sua primeira vez na cidade. Nessa mesma tarde passamos lá depois que comemos e nos divertimos, tiramos fotos, vimos como eles preparam as parrillas, coisa e tal


Só acho a comida cara, as piadinhas prontas dos garçons já me cansam (ok, não sou mais turista e talvez depois de ir muitas vezes tenha ficado cansada) e basicamente pelo mesmo preço que você paga aí, você almoça em muita parrilla top ou restaurante badalado de Montevidéu

Saindo do Mercado, apertamos o passo para chegar às 16h no Teatro Solís e pegar a visita guiada. 

Nossa primeira atração paga. Compramos as entradas a 50 pesos e pedimos a visita em inglês (um dos amigos é irlandês), para nossa surpresa eramos só nós três, fizemos um tour quase exclusivo.

A guia era uma mocinha bem simpática e contou muita coisa interessante sobre o teatro. O passeio começa na parte externa, fala-se um pouco sobre a história da cidade e a influência do teatro na sociedade de outrora. Depois seguimos para o interior do prédio e a visita terminou na sala de exposições do subsolo.


Eu já conhecia o Solís, já tinha feito a visita guiada e visto espetáculos, mas sinto sempre como se fosse a primeira vez. É impossível não se impressionar com a sala principal.

Para a experiência ficar melhor, só conferindo alguma apresentação, então fiquem atentos a intensa programação do teatro. As entradas costumam ter preços acessíveis e não saber espanhol não chega a ser uma desculpa, há muitos shows (recentemente a Maria Gadu e o Lenine se apresentaram juntos lá), peças infantis, musicais, etc.

E aí, vocês já cansaram de ler? Quase dividindo o post em duas partes porque ainda tivemos fôlego para atravessar toda a Ciudad Vieja e chegar ao Museo de las Migraciones. Outro museu chiquito e gratuito, também nesse esquema de 'tome o panfleto e se vire' rs.

Eles têm uma exposição permanente chamada Ir e Voltar: Exílio, Repatriação e Retorno, e pudemos ver também a mostra fotográfica 'Mujeres Migrantes Comparten Sus Secretos Culinarios' e uma exposição impactante que estava quase perdida num cantinho do museu sobre os  quase 100 anos do genocídio de armênios pelo Estado turco. 

Visitar esse museu foi uma experiência interessante, pois eu também migrei e é natural o tema mexer comigo, né? Bem verdade que minha escolha foi pautada numa decisão livre e feliz, não dá para comparar com as histórias de pessoas que deixaram seu país de origem por falta de opção ou imposição, mas no fundo é como se todos nós que saímos de casa tivessemos algo em comum. 

Deixamos o museu já anoitecendo e antes de voltar para casa fizemos outra paradinha para comer. Afinal quem resiste a uma vitrine cheia de masitas e bizcochos? Umas delicinhas que encontramos em quase toda esquina de Montevidéu nas padarias e confiterías


Não seria exagero dizer que dá para anotar como outro atrativo turístico: Confitería 25 de Mayo (rua de mesmo nome, número 655, esquina Bartolome Mitre). 

Para terminar o dia doce! ;)


P.S.: O texto ficou enorme e sei que é cansativo chegar ao final, mas achei apropriado começar com um roteiro grande que vai ocupar pelo menos 6 horas do seu dia de turista. 

E não, não fizemos 'tudo' no Centro e Ciudad Vieja, voltamos depois, mas aí já é papo para os posts seguintes - que serão mais sucintos - rs.

Recapitulando, nessa tarde visitamos as seguintes atrações:




Boa viagem! ;)

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Montevidéu, o que fazer e roteiros

Dias atrás li um relato dizendo que Montevidéu era legal, mas tinha pouca coisa para o turista brasileiro fazer, era um blog com um bom número de seguidores que comentavam e curtiam o texto. 

Cada vez que eu vejo coisas assim fico num siricotico danado e preciso desabafar rs. 

Primeiro porque afirmações desse tipo são falsas ignoram todas as galerias, museus, teatros, cinemas, livrarias, cafés, passeios, feiras e otras cositas más que a cidade tem a oferecer.

Segundo porque levo anos morando na cidade e ainda tenho uma lista boa de lugares a conhecer, muitas vezes pela correria do dia a dia vou deixando para depois ou então vou tomando conhecimento sobre certos lugares com o tempo mesmo.

Terceiro porque Montevidéu é uma cidade que se revela aos poucos, você não chega e dá de cara com aquele turismo escancarado cheio de atrações pops na manga: super monumentos, torres e prédios que são figurinhas batidas em cartões postais,  ou aquela coisa de zona gourmet, zona de balada, zona de compras e outlets, etc. 

Não há aquele mundo de pontos turísticos famosos para os visitantes correrem freneticamente fazendo check in nas redes sociais. Mas não dá para confundir isso com falta do que fazer, gente. Com disposição para descobrir os encantos dessa cidade, você encontra opções maravilhosas e pode voltar ao Brasil suspirando de saudades do paisito.

Eu poderia seguir enumerando e argumentando, mas pensei que poderia responder com uma série de posts com roteiros mastigadinhos sobre o que fazer em Montevidéu porque acho uma pena quando as pessoas que nunca viajaram compram esse discurso do 'é legal, mas' e acabam desistindo previamente do destino ou então se limitando a fazer as mesmas coisas que o autor do texto fez por acreditar que é só aquilo que tem a ser feito.

E quando digo que vou trazer roteiros mastigadinhos é porque já temos no blog uma categoria cheia de sugestões de atividades, é só clicar na barra principal 'Montevideo -> O que fazer' que aparecem vários posts com dicas para montar um roteiro com as atrações que parecem mais legais para cada um.

Sempre achei mais bacana desse jeito, talvez porque amo personalizar meus roteiros de viagem, não seguir a risca o itinerário de alguém me faz sentir mais livre ou rebelde rs. 

Mas vou tomar a liberdade de compilar algumas informações e espero que colabore para evitar essa conversa de que a cidade tem pouco para mostrar.

Amanhã publicarei um post com um passeio que fiz pelo Centro e Ciudad Vieja com uns amigos que nos visitaram no mês de maio. 

O que fazer na Ciudad Vieja em Montevidéu

Se vocês gostarem do formato, aparecerão mais sugestões nessa linha. 


Até breve! ;)

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Curiosidade: Eleições presidenciais no Uruguai

Engraçado como o tempo vai deixando a gente menos sensível as diferenças do cotidiano, talvez porque os novos costumes se misturam tanto com aqueles que trazemos na bagagem que chega um momento que vira tudo um corpo só, deixando as referências do que é normal e diferente quase num mesmo plano.

Pode ser exagero, preguiça ou rotina, mas fato é que já não é tão fácil identificar as novidades.

E andava assim sem muita inspiração até que chegaram as eleições presidenciais e eu mergulhei novamente nesse mundo das diferenças e teorias de mesa de bar cheias de divagações sobre o sistema, comportamento, política, etc e tal. 

Confesso que fiquei receosa de trazer esse tema ao blog porque não queria fazer um artigo jurídico sobre o sistema eleitoral (não estudei nenhuma lei, são observações que vivi no dia a dia) e também não queria ficar naquele maniqueísmo eterno de direita X esquerda ou comparações do tipo melhor X pior.

Queria só dividir o que achei bacana no processo eleitoral no paisito e começo pelo que chamou mais minha atenção: as 'elecciones internas' que ocorreram ontem. 

Nessas eleições o voto é facultativo e as pessoas decidem qual candidato irá concorrer as eleições em outubro. Eu achei isso fantástico!

Basicamente são três partidos no Uruguai: Nacional, Colorado e Frente Amplio (há um partido independente também - e outros ainda menores, mas tem pouca representatividade e lançam apenas um candidato). 

Dentro de cada partido existem especies de sub-grupos, ou seja, no partido de esquerda ou direita há a banda mais conservadora, radical, etc, e essas 'correntes' escolhem um nome para disputar as 'elecciones internas', fazendo com que cada partido indique dois candidatos para o povo escolher. 

Imaginem se tivessemos o poder de escolher quem seria o candidato do partido X? Para ficar mais didático, é pensar que iriamos as urnas previamente decidir se o candidato a presidência seria Serra ou Neves, Lula ou Dilma. 

É bem verdade que o partido define os dois nomes que vão a disputa, mas é o povo quem declaradamente bate o martelo final de quem irá disputar o cargo mais importante da nação. Um pequeno e belo detalhe.

O mais curioso era ver a campanha correndo solta com mais de um candidato representando o mesmo partido. Era muito confuso para minha cabeça porque a principio não conseguia associar ideias a determinado grupo, não conseguia ligar um partido a uma identidade.

Via duas pessoas levantando as cores e bandeiras iguais, mas não necessariamente defendendo a mesma linha política, alguns inclusive propondo projetos opostos um do outro. Era coisa de fulano do partido X ser a favor da legalização da maconha, por exemplo, e ciclano do mesmo partido X ser contra. E em muitas oportunidades há trocas de farpas, grandes alfinetadas entre eles. 

Acho que de certa forma esse modelo abre a dinâmica interna dos partidos, tenho a ilusão que o poder saí - ainda que temporariamente - daquele lobby político de poderosos que financiam as campanhas com interesses duvidosos e pula para as mãos do povo.

As principais figuras não posam de amiguinhos nesse momento, é cada um querendo mostrar para quem importa - o eleitorado - quem é o melhor no jogo. Depois eles podem até fazer as pazes rs, mas é interessante acompanhar os movimentos que se criam.

Nesse ano muito se comentou sobre o baixo número de participação dos uruguaios, o menor número de votos desde que se instalou esse sistema, especialistas discutiram as razões da falta de interesse e a possibilidade de tornar o voto obrigatório ou realizar alterações no processo eleitoral. No total apenas 37% da população foi as urnas.

Sobre as diferenças na abordagem dos candidatos aos eleitores ainda tem muita água para rolar. 

Nessa campanha prévia se eu for comparar com o que vivia no Brasil, posso dizer que ouvi menos gritos e músicas irritantes rs, mas recebi muito papel no trânsito, na rua, na chuva, na fazenda... 

Tinha gente entregando panfleto em todos os lugares da cidade, haviam pessoas que não só entregavam papel como também buscavam persuadir os eleitores indecisos, falando sobre os candidatos e planos de governo. E vi bastante sujeirinha com os nomes, números e caras dos candidatos estampada nos muros.

Na tv passava muita propaganda dos candidatos, basicamente todas mantinham o mesmo padrão ou roteiro: candidato - povo - discurso - musiquinha da vitória.  

Outra curiosidade é que não se conhece quem será o candidato a vice-presidente, é apenas após a apuração dos votos e definição dos candidatos que os partidos se reúnem para escolher e anunciar a pessoa que irá juntar-se à campanha eleitoral.

E o resultado dessas eleições foi o seguinte:

Eleições presidenciais no Uruguai

Logo, a próxima eleição presidencial no Uruguai será disputada por Tabaré Vázquez (que já foi presidente anteriormente), Luis Lacalle Pou (filho de um ex presidente), Pedro Bordaberry e Pablo Mieres.

Você deve estar se perguntando cadê o Pepe Mujica nesse baile todo? O queridíssimo Pepe não disputará as eleições, como já tinha comentado no post sobre o Palácio Legislativo, o mandato parlamentar é de 5 anos e não se admite a reeleição imediata para o cargo de presidente da república.

E as pessoas estão arrasadas por perderem o presidente mais admirado dos últimos tempos no mundo? Err... não exatamente! 

No Uruguai o Mujica não é visto como esse herói que o resto do mundo exalta, tem muita gente que questiona duramente as políticas de governo dele, o caráter e humildade é algo obviamente ressaltado pela maioria, não é que as pessoas discutam se ele é honesto ou desonesto, as pessoas discutem as ações de governo que foram equivocadas ou não, e no saldo dos 5 anos a aprovação não beira a unanimidade como é de praxe imaginar quando se vive fora daqui. 

Eu faço parte do time que se sente representado pelo Mujica, não escondo uma ponta de orgulho quando vejo os discursos dele, acho digno, coerente, emocionante e ainda é estranho pensar que logo mais será outro nessa posição. Mas eu ainda não voto e para falar a verdade não estaria preparada para votar agora.

O Uruguai ganhou notoriedade pela coragem de tratar temas difíceis e estabelecer uma política que vai contra a hipocrisia moderna, será no mínimo interessante acompanhar os novos caminhos que serão traçados no país. 

E já foi dada a largada!


Abraço! :)
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