O ano quase nômade

Antecipando a mensagem de fim de ano porque faz tempo queria conversar mais na intimidade.

Foi um ano difícil para esse bloguito amado, manter uma constância nas publicações foi o maior desafio e naturalmente foi um reflexo da vida que estavamos levando.

Começamos 2017 na Colômbia - passamos quase 1 ano lá a trabalho, transferência da empresa uruguaia como comentei por aqui na época. Seguimos para uma escala de 1 noite no Peru que se transformou em 10 dias de home office improvisado. Quando finalmente chegamos no Uruguai, maridón trabalhou as últimas semanas na empresa mais querida de toda a vida e partimos para o Brasil.

Vivemos quase 2 meses em Salvador, desde que saí em 2011 nunca mais tinha passado tanto tempo na terrinha, foi um período bem especial até chegar a hora de preparar as malas novamente. Voamos para a Europa, perambulamos por 5 países e finalmente desembarcamos na Irlanda, onde estamos agora com residência fixa.

No total foram 7 meses morando em casas diferentes, as vezes por 2 dias, outras vezes por semanas ou meses inteiros. Sem dúvida uma experiência tão incrível e enriquecedora quanto complexa e transformadora. Mudar sempre mexe com a gente e mudar repetidas vezes num espaço curto de tempo é bem intenso.


E nessas mudanças faltou tempo para escrever, faltou foco - era muita coisa nova acontecendo o tempo todo e, principalmente, faltou disposição ou inspiração, de repente peguei um bode gigante dessa coisa chamada internet e blogueiro de viagem.

É um tal de todo mundo querendo crescer, aparecer, fazer parcerias, ter um milhão de fãs ou inscritos a todo custo. Não que tenha algo errado nisso. Não tem, inclusive podem me mandar presentes, convidar para press trip e afins, obrigada hehe. 

O que me incomodava era ver todo mundo pegando o mesmo caminho, publicando o mesmo tipo de fotos, mesmo tipo de texto, tudo muito igual como se existisse só um 'modelo de sucesso'. 

E padrão é uma coisa esquisita que faz a gente se cobrar sem nem perceber. Eu me perguntava porque meus números não aumentavam, porque não conseguia deixar o feed organizadinho-combinandinho numa paleta de cor tendência, dentre outros assuntos irrelevantes da blogosfera.

Foi frustrante até eu perceber que estava tudo bem trabalhar do meu jeito, que eu não era lenta demais e ok levar 3h para publicar um texto começando do zero, que eu não precisava comprar uma fazendinha de likes para inflar os números das redes nem meu ego, que estava tudo bem ter poucos posts publicados porque louco mesmo é ter 30 posts sem pé nem cabeça todo mês só para chamar a atenção do Google (e olha, temos vários posts que aparecem na primeira página do buscador e nunca usamos essas técnicas duvidosas, fica o incentivo para quem quer trabalhar de maneira orgânica também).

Adotei como mantra que em terra de plágio, blogueiro bom é blogueiro que senta a bunda e escreve sem copiar o coleguinha. Crise superada hehe.

Mas tinha outra: a crise da chatice alheia a cada mensagem sem noção recebida. Essa crise a gente supera, mas volta e meia ela aparece porque sempre tem uns doidos interagindo.

E não sei o que aconteceu nos últimos meses, mas essa galera da loucura se pronunciou em maior volume que os leitores do bem que aparecem para mandar uma mensagem bacana, incentivar, recomendar, fazer desse espaço um lugar de troca, mais divertido e leve.

Aí foi um tal de gente pedindo para add no zap porque tinha dúvidas, mas nunca nunquinha na vida podia ler uma linha desse blog. Várias vezes tentei ajudar passando alguns links que esclareciam as dúvidas e recebi um 'legal, mas não tenho tempo para ler' ou 'ah, é muita coisa, vc pode resumir por e-mail?'. Juro que aconteceu/acontece com muita frequência. 

Brochante, né? Mas passou também, que Deus conserve assim e que muitos posts novos brilhem nessa nova fase hehe. Estou animada e isso já responde quem perguntou se iria continuar escrevendo mesmo morando longe de novo: eu vou tentar, como tentei das outras vezes.

Não sabemos quanto tempo ficaremos na Irlanda, por enquanto não temos previsão de nada, o que sabemos é que as raízes da nossa família estão no Uruguai e no Brasil, meu marido e filha são uruguaios, pelo menos uma vez por ano pisaremos nas duas terras.

Sempre vai ter uma leva de conteúdo novo - seja pelas nossas visitas ao país, retorno definitivo ou colaborações de terceiros, seja pela pasta de rascunho infinita que sempre dá para pescar textos diferentes. 

O blog não vai ficar desatualizado porque não estou em território uruguaio, a maioria dos blogues de viagem são mantidos com textos sobre destinos onde as pessoas passaram apenas alguns dias, não escrever diretamente do lugar não é um motivo por si só para acabar com o blog.

Apenas se chegar o momento de não ter mais nada bacana para compartilhar ou acabar de vez a alegria e vontade de falar sobre o paisito que entenderei como um projeto encerrado. Hoje, estamos longe disso, felizmente hehe.

Outra coisa que me perguntaram bastante foi o motivo da mudança e se estavamos decepcionados com o Uruguai, se não era mais um lugar bom para morar. 

Vou tentar resumir as maiores divagações da minha vida em algumas linhas hehe. Dessa vez a mudança não foi por trabalho, viemos por conta própria e não teve um motivo específico, voltar para a Europa sempre foi um tema pendente (moramos em 2013) e entendemos que a oportunidade era agora, estavamos voltando da Colômbia e de toda forma teriamos que recomeçar: alugar, mobiliar, comprar.

Tinhamos só algumas malas, já que na mudança para a Colômbia tivemos que nos desfazer de tudo no Uruguai, estavamos livres, leves e soltos, então decidimos que era o momento para continuar viajando e descobrindo o que queriamos.

Se eu falar que não existia nenhuma bronca com o Uruguai, seria mentira. Não fugi nem deixei de amar, ainda penso em voltar, mas sem dúvida é um lugar bem difícil e caro de viver. Em todos esses anos por mais esforços que tenha feito, nunca consegui um trabalho que saísse daquele universo do 'mercado português'. 

O salário desse universo é uma piada perto do custo de vida do país e por mais que eu seja roots-de humanas-vou viver de amor é meio desesperador perceber que entra ano, sai ano as oportunidades são as mesmas.

Mas tudo bem, a pessoa é brasileira, não desiste nunca, bora lá empreender e mudar essa história. Pesquisa daqui, pesquisa dali e putz: caro! E vamos combinar que há toda uma ciência por trás de empreender em outro país, criar algo para pessoas que têm um background diferente do seu. 

Foram anos vivendo no Uruguai, casei com uruguaio, pari uma uruguaiazinha, trabalhei no meio deles tudo. Manjo as sutilezas do dia a dia? Manjo. Me adaptei? Totalmente.

Mas ó, tem coisa que as cabeças da gente não batem e não vão bater nunca, é outra cultura, outra forma de ver a vida (seja você do Sul ou do Nordeste). Não tem certo nem errado, tem diferenças e não é todo mundo que tem esse detalhe muito claro nos planos de negócio.

É preciso muita coragem, o mercado é complexo, o número de estabelecimentos que fecham antes do primeiro ano é altíssimo e de novo, é bem caro. 

Empreender não foi uma realidade pra mim que tinha a grana para abrir algo ou dar entrada num apartamento. Não banquei o risco e partimos para a segunda opção, mas poxa vida, também não foi fácil.

Os imóveis são vendidos em dólares americanos - que teve altas históricas - a preços assustadores, aí tem comissão da imobiliária que o comprador paga também (3%), tem um monte de coisa que dificulta o processo.

Os bancos não te dão pelota mesmo você tendo uma vida organizada: renda, estabilidade no emprego, zero dívidas e tal. Se for estrangeiro, já começa que nem financiam. Desistimos também (ainda bem porque os preços caíram um pouco agora) porque a coisa não fluía de jeito nenhum.

Dá para ver que haviam muitos atritos na minha relação com o país, sobretudo a partir do momento que desejei ser adulta, para conquistar sonhos no Uruguai tem que ter uma dose extra de ousadia, persistência, paciência e fé porque as coisas demoram uma eternidade para acontecer e para tudo - tudo mesmo - há mil barreiras que se reproduzem hehe.

Mas não existe decepção, eu sempre soube que era difícil, existiu talvez uma mágoa por não ter conseguido dar passos maiores na hora que achei apropriada. Saímos de casa mesmo por curiosos e inquietos que somos.

A vida é dura, mas eu que sou bem louca, até vejo beleza na melancolia uruguaia. E precisei sair de novo - terceira vez - para aceitar que o corazón ficou lá. Encontrei um novo lugar ao qual pertencer mesmo sem pertencer e isso não tem preço nem se repete, acredito.

A despedida, como sempre, é um até breve e com afeto.

Os votos para o fim de ano vou fazer em outro texto, ainda chocada com a velocidade das coisas, tá todo mundo com árvore de Natal montada. Novembro, gente! Segura hehe.

Mas não posso deixar de agradecer desde já a companhia, especialmente nesse ano iô-iô.

Obrigada de coração!

9 comentários

  1. Belo texto!
    eu comento com os conhecidos que meu sonho é morar em Montevideo se eu me aposentar. Mas, todas as pessoas que conversei em Montevideo reclamam do custo de vida elevado. Acho tão triste isso, pois adoro o Uruguay.

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  2. Adorei o texto. Também me fez refletir sobre uma série de coisas do lado de cá. Desde a coisa de seguir padrões, pois também comecei um blog e estava meio perdida e agora com seu texto meio que desencanei de tentar seguir um "padrão", vou fazer o que gosto e pronto!
    Sigo seu blog desde minha primeira visita ao Uruguai e sempre leio, mas nunca comentei nada e isso tb me fez refletir. Às vezes acompanhamos tanta coisa bacana, mas não tornamos isso oficial, não comentamos nada, não curtimos. Esse mundo virtual nos deixa mais próximos, porém mais frios - é uma via de mão única, quase um monólogo.
    Eu ficava encucada porque ninguém comenta nada no meu blog e agora me dei conta de que também não comento nada nos que eu sigo, rrssss...
    Gostei da sua visão do Uruguai, me mostrou muita realidade e sinceridade. Até então eu tinha uma visão de mundo "perfeitinho", talvez porque todos lá adoram os brasileiros e nos tratam tão bem. Mas é aquela história, a gente sempre oferece o melhor para as visitas e fazemos muito mais do que é feito para quem mora em casa!
    Boa sorte na nova fase. Obrigada pelas reflexões. Que 2018 seja espetacular...

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  3. Que delícia ler textão seu! Sou do time da galera que tava com saudades! Eu sou suspeita pra falar, mas você arrasa, Jamis! Sei muito bem como demanda sentar e escrever e que feliz ver você investindo seu tempo em prol da gente que tá desse lado consumindo esse conteudo tao legal! Ninguem faria algo como o Viver Uruguay tão legal, honesto, criativo e íntimo como você. Sou feliz de participar e colaborar com esse projeto pelo qual tenho o maior carinho do mundo! E que textão belo!

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  4. Olá, moça bunita! Que saudades de ler seus textos... Olha, saiba que vc é única e a maneira que escreve é especial. Sentimos carinhos em cada frase.
    que venham mais informativos sobre o paisito.

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  5. Mile, comecei segui o seu perfil quando estive no Uruguai e de lá pra cá surgiram outros inúmeros motivos. A sua paixão pela viagem, por conhecer o mundo é algo com que me identifico. Admiro sua coragem por encarar esse mundão com uma filhota linda e por sua honestidade, sempre tão clara nos seus textos.
    Não pra isso jamais! É só isso que temos e é o que vale. Espero te encontrar por aí um dia desses. Que 2018 seja lindo pra vcs!!
    um beijo, Ana Paula Sandrini

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  6. Só tenho a agradecer. No ano passado, li uma grande quantidade de textos por aqui e comprei o Guia de Montevidéu. Fui passar o Natal no Uruguai. Era minha quarta vez no país e, sem dúvida, suas informações foram muito importantes para que essa fosse uma estada ainda mais especial do que as anteriores. Nesse ano não pude ir, mas o coração está sempre batendo forte para voltar lá. O Uruguai se tornou algo muito presente na minha vida. Parece coisa de maluco, mas comecei a fazer parrillada, tomar mate, procurar Zillertal nos supermercados, encher a adega de tannats, ouvir os discos do Gustavo Ripa, Eduardo Mateo... enfim, a paixão e a admiração são gigantes. Um país que encanta pela simplicidade natural, pelo jeito pacato e sensível de sua gente. Tenho várias imagens muito fortes na memória: das pessoas engravatadas saindo do trabalho, sentando na calçada e puxando um mate da maleta para ver o pôr-do-sol; das pessoas me cumprimentando com um beijo na bochecha durante a Missa de Natal; da sensação agradável de estar em lugares em que, mesmo cheios, se consegue sentar, estacionar, andar, respirar, falar, desfrutar. O Uruguai tem algo especial, que o Brasil já teve e infelizmente há algum tempo deixou de ter. Não é um local para turistas convencionais, que facilmente podem se frustrar por lá. O Uruguai demanda sentimento, imersão, sensibilidade. É naturalmente para poucos e bons. Parabéns pelo seu trabalho e continue assim, escrevendo desse modo especial sobre esse tema especial.

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  7. Oi Mile, sou mae de primeira viagem de um garotinho de 3 meses. Cheguei ao seu blog procurando infos pra viajamos com ele agora em dezembro. Vamos Par a o Uruguai e suas dicas são excelentes. Mas de verdade achei o seu blog muito mais. Que texto bom! Vontade de ler tudo. Sinceridade, conteúdo, sem afetação! Vou seguir sem dúvida nenhuma. Não sou de descrever comentários mas a sua forma de escrever me estimulou. Que corra tudo bem na sua fase irlandesa. E que tenha sempre motivação para escrever. Eu já encontrei muita motivação para acompanhar! Ah e fiquei curiosa. Como Está sendo com a pequena. Essa a mudanças todas. Puxa vale um post! Beijos
    Patrícia

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  8. Oi Mile! Li até o final como fiz com vários posts de seu blog que, na minha opinião, é o mais completo compilado de coisas interessantes para conhecer/viver no Uruguai (a viagem que fizemos neste ano foi praticamente toda baseada nos teus testemunhos!). Volto aqui sempre para ver as novidades, suas, da terrinha e dos próximos destinos! Sucesso na nova empreitada!

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  9. Oi Jamile! Que alegria encontrar o teu blog e ler este texto! Eu me mudei para Montevidéu há alguns meses e me vi muito, MUITO mesmo, nesse relato. Dada a fragilidade que algumas dificuldades aqui estão me causando, até me caíram umas lagriminhas lendo, acredita? hehe. Eu tinha e tenho a ideia de escrever sobre minha experiencia aqui também, sobretudo no diz respeito a minha área de atuação que é a comunicação social. Por enquanto minha vida aqui está tao "coisada" (porque não tenho um adjetivo que defina) que não consegui tempo e nem disposição para dar esse passo. Apesar disso, lendo teu conteúdo aqui me bateu uma super motivação! Como é gostoso ler um texto escrito com o coração, obrigada por compartilhar com a gente. Um abraco!

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