Festa de Iemanjá no Uruguai

Tá aí algo que nunca pensei encontrar em Montevidéu: uma festa grande e linda para a rainha das águas.

Dia 2 de fevereiro é dia de festa popular por aqui também, dá para imaginar minha surpresa quando com apenas uma semaninha de vida em terras charrúas descobri que tinha festa para Iemanjá?




Eu não pratico nenhuma religião, mas como toda baiana fui forjada no sincretismo, tenho fé na fé dos outros, acho bonito, me emociono e vibro junto embalada pelos mistérios. 

Em Salvador as homenagens a Yemanjá começam de madrugada e acontecem na praia do  Rio Vermelho, a celebração envolve milhares de pessoas trajando branco e azul que vão levar suas oferendas, em geral artigos de beleza, como perfumes, espelhos, colares, pois dizem que é uma orixá muito vaidosa.


Por volta das 16h esses presentes são levados ao mar em grandes balaios pelos pescadores, que todo ano também elaboram um presente ‘principal’ que sai a frente de todos os outros barcos, é um dos momentos mais aguardados da festa: o cortejo marítimo é acompanhado por dezenas de embarcações.


As celebrações seguem na areia da praia com vários representantes do candomblé realizando suas crenças, não tenho conhecimento para aprofundar, mas via que davam passes e banhos de pipoca nas pessoas, cantavam e sinto que a idéia da festa, independente da religião, é aproveitar a oportunidade para comemoraragradecer, fazer pedidos e rezar.

Aqui em Montevidéu é um pouco diferente, a festa também reúne muitas pessoas nas areias da Playa Ramirez - talvez o por do sol mais lindo da cidade! – que vão celebrar as bençãos, fazer pedidos e levar seus presentes.




Também ficam representantes do candomblé cantando em dialetos africanos com tambores, pessoas dançando em volta das oferendas com roupas como as baianas – é muito impressionante mesmo ver essas semelhanças, sei que são costumes africanos e estatisticamente existem 8% de afro-descendentes no país, mas não imaginava que uma cidade como Montevidéu pudesse ter uma festa tão expressiva assim.



A maior diferença é que não saem barcos com os presentes, quando o sol se põe, nesse caso às 21h, as pessoas vão ao rio mar e cada uma coloca flores ou seu barquinho de isopor azul e branco com melancias (ainda não entendi o porquê da melancia e não outra fruta, que inclusive é bem carinha por aqui, capaz pergunto hoje), antes de levar as flores ou os barquinhos, elas cavam buracos na areia e colocam velas, daí fica lindo quando o sol se põe e a praia fica todinha iluminada.






Você também se surpreendeu com a festa de Iemanjá uruguaia? Odoyá!

Fotos da festa em 2011 e 2012.


*Edit: me poupe e se poupe de intolerância religiosa disfarçada de cuidado ambiental! Todo ano é essa palhaçada: ain, sujam a praia - ain, poluindo o mar, diz o camarada que não recicla uma garrafa pet, que tá colado na bancada que destrói a Amazônia, que acha bonito prédio espelhado à beira mar, etc etc.

Há inúmeras festas que sujam o espaço público e a prefeitura faz uma força tarefa em seguida para limpar e ninguém fica tão revoltado, há anos estão trabalhando para melhorar os presentes com artigos biodegradáveis e esse é um debate super válido e necessário, mas não quando vem carregado de ódio ou intolerância. A mensagem é simples: Deixe o povo do axé em paz!

Grata pela compreensão :)




8 comentários

  1. LINDO MESMO!

    Há tempos eu assisti um documentário sobre o candomblé e umbanda na Argentina e Uruguai (não lembro se na Discovery ou National Geographic) e que tratava do crescimento dessas religiões nestes países. Até aí eu já tinha lido muito sobre o assunto, pois apesar de agnóstico, tenho vários amigos na umbanda e sou um admirador dos cultos afro e de pajelança. Porém fico sempre surpreso ao ver manifestações desse tipo em terras estrangeiras, com milhares de simpatizantes, curiosos e turistas saudando nossa riqueza cultural. Acredite, mas eu já topei com uma macumba na Europa (feita pra quê ou para qual gringo eu não sei). Ainda recordo que o narrador do documentário dizia que a Festa de Iemanjá figurava entre as mais importantes no calendário do Uruguai, ou ainda – algo que considerei um tanto exagerando – já superava o Natal e Ano Novo... Verdade? Você deve saber

    Nunca mais vi o tal documentário, mas achei esses dois vídeos (abaixo) interessantes, entre muitos outros:

    http://tal.tv/video/umbanda

    http://www.youtube.com/watch?v=UUowlZlT8Qk

    Canjica, merengue e melancia são os pratos prediletos do orixá (Iemanjá), mas as razões antropológicas para isso eu desconheço.

    “Made in Axé”... Como boa baiana, vê se exige royaltie!

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    1. Eu também fico bem surpresa, Alex!

      Eu sinto que algumas pessoas ainda marginalizam a religião, marcas de um passado colonialista acredito!

      Muita gente acha "estranho", tem "medo" do povo "possuído", escutei esses comentários de algumas pessoas quando dizia que estive na festa... mesmo sem conhecer o tema eu trato de desmitificar essa visão demoníaca que muita gente ainda carrega sobre os cultos africanos, pelo simples fato de acreditar que todo mundo tem o direito a ser respeitado em suas escolhas.

      E acredite, essa situação não ocorre só aqui, é recorrente inclusive em Salvador!

      Por outro lado a celebração concentra muitos "curiosos" como eu, gente de cabeça aberta ou simpatizantes e praticantes da umbanda!

      Há muita gente na praia, isso não se pode negar, e a festa é linda! Só não sei dizer se supera o natal e ano novo porque nunca passei essas festas aqui em Montevideo, sempre viajo...

      Vou dar uma olhadinha nos videos, obrigada!

      Axé! ;)

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  2. Oi Mile, você está morando em Montevideo?
    Programamos uma viajem de carro de Porto Alegre para Punta del Leste e Montevideo em setembro, e procuro dicas de hostels.

    fornaripedroso@gmail.com

    Att, Pedro Fornari.

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    1. Oi Pedro! Tudo bem?

      Sim, estou morando aqui.

      Fiz um post sobre hostels aqui em Montevideo, dá uma olhadinha depois.

      Em Punta não conheço muito, sempre passo pelo El Viajero e 1949, mas na página do hostelworld.com há mais opções.


      Abraço.

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  3. Oiii e aí tem muitas lojas de artigos de umbanda?

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    1. Eu não conheço (nunca vi, por exemplo, no circuito que os turistas costumam fazer), mas seguramente tem alguma loja na cidade...

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  4. Excelente post, Mili. Sou uruguaio e adorei o seu texto sobre nossa cidade. Só uma correção: na verdade, os afrodescendentes uruguaios somam em torno de 13 a 14% da nossa população, somando negros e mulatos, segundo estudos mais recentes e credíveis (o censo oficial tem vários problemas de método). Isso sem contar aqueles uruguaios brancos que têm um avo ou bisavo negro (aí certamente chega a muito mais). Nossa população afro é a maior do Cone Sul da América (que inclui Argentina, Chile e o Sul do Brasil). Nosso maior capitão foi Obdulio Varela, EL Negro Jefe, capitão do Maracanazo.
    Por isso as religiões como umbanda são relevantes no meu país.
    Obrigado pelo texto, um orgulho ver os irmãos brasileiros falando de nossa cultura!!!
    Matias

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    1. Muito obrigada pela gentileza, Matias. Esse é um texto antigo, dos primeiros que escrevi, seguramente os dados mudaram no correr desses anos, mas obrigada pela colaboração.
      Abraço!

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