Para quem não lembra da tragédia que ficou conhecida como o "Milagre dos Andes", faço um breve resumo: no mês de outubro de 1972 um vôo fretado com 45 pessoas partiu de Montevideo com destino a Santiago, no grupo haviam jovens integrantes da equipe de rugby Old Christians Club que iam jogar uma partida na capital chilena, e também amigos e familiares destes.
Após uma parada devido ao mal tempo em Mendoza na Argentina, o avião seguiu viagem e no dia 13 de outubro caiu em meio às montanhas nevadas da cordilheira.
Com a queda 13 pessoas morreram, incluindo o piloto, co-piloto e o médico que acompanhava o grupo. As demais tiveram que enfrentar condições climáticas extremas sem equipamentos especiais para a neve e com pouquíssima comida.
Os trabalhos de buscas tinham apoio dos 3 países envolvidos: Chile, Argentina e Uruguai, porém o avião branco em meio à neve tornava praticamente impossível o trabalho das equipes e após 8 dias as buscas foram encerradas: todos foram dados como mortos e o mais perturbador é imaginar que os sobreviventes escutaram essa notícia pelo rádio do avião.
É surreal imaginar essa cena, a pessoa ali debilitada fisicamente pelo acidente, emocionalmente destroçada pelo choque de ter sobrevivido e pelas perdas dos companheiros ao redor, totalmente perdida no meio do nada com fome, frio, sede, mantendo apenas a esperança de um resgate. E aí é anunciado que esse resgate não ocorrerá, aquela pontinha de esperança é cortada talvez mais abruptamente do que a própria queda do avião. Como seguir acreditando, como pensar num jeito de sair dali e gritar para o mundo que eles estavam vivos?
Nesse cenário de incertezas eles foram surpreendidos por outro acidente: uma avalanche caiu sobre a fuselagem onde eles dormiam e mais 8 pessoas faleceram asfixiadas pela neve, dentre estas a última mulher sobrevivente do grupo.
A luta pela sobrevivência era diária, eles tiveram que fabricar elementos e utensílios para driblar o meio hostil, criaram alambiques, luvas e roupas com o forro dos assentos do avião para suportar o frio, uma especie de engenhoca para derreter a neve e ter água para beber, óculos para resistir à luz branca e intensa da neve e não comprometer a visão, etc.
Convencidos que já eram os únicos responsáveis pelo próprio destino, eles decidiram apostar numa expedição em busca de ajuda, três integrantes do grupo partiram rumo à civilização, ou pelo menos onde eles acreditavam que encontrariam auxilio, é que eles contavam com a informação errônea da localização dada momentos antes da queda, pensavam que já estavam do lado chileno e terminaram escolhendo o caminho mais complicado possível.
Iniciaram uma caminhada sem nenhum recurso adequado no que diz respeito a equipamentos, roupas, acessórios, sem nenhum tipo de treinamento e a essa altura sem força física, já havia passado quase 2 meses.
Dois meses, gente! Vivendo num terreno sem animais ou vegetação e com temperaturas entre -25 e -42 °C. Acho que nem com muito esforço a gente consegue dimensionar o que é viver por semanas nessas condições.
No terceiro dia de caminhada, um dos integrantes voltou para o acampamento. Os outros dois seguiram por mais 7 dias numa paisagem que colocava em cheque a viabilidade do plano: montanhas, neve e mais neve, pouca visibilidade, nenhum sinal de vida no caminho. A dupla se guiava por uma montanha que aparecia ao fundo e que se revelava sem o pico coberto de neve, nesse ponto podia haver um vale, um povoado, uma ajuda.
Passados 10 dias de expedição, eles finalmente avistaram a figura de um homem a cavalo. Nando Parrado tentou comunicar-se, mas não conseguiu devido ao barulho do rio que os separava. O homem brilhantemente amarrou uma folha de papel e caneta numa pedra e lançou ao outro lado do rio, o uruguaio a duras penas conseguiu escrever a seguinte mensagem:
"Vengo de un avión que cayó en las montañas. Soy uruguayo. Hace 10 días que estamos caminando. Tengo un amigo herido arriba. En el avión quedan 14 personas heridas. Tenemos que salir rápido de aquí y no sabemos cómo. No tenemos comida. Estamos débiles. ¿Cuándo nos van a buscar arriba? Por favor, no podemos ni caminar. ¿Dónde estamos?"
O chileno Sergio Catalán, um homem simples do campo, entendeu a mensagem e cavalgou aproximadamente 8 horas para levar a informação ao posto de oficiais mais próximo. E aí é uma das partes que mais me emociono, um estranho cavalgar 8 horas para levar uma mensagem, ato de uma alma iluminada que apareceu na vida dessas pessoas que vinham sofrendo tanto.
A partir daí se organizou todo o resgate, as equipes recebiam o chamado incrédulas. Passaram-se 72 dias. Sobreviveram 16 pessoas. A notícia do resgate chegou a Montevideo e não sabiam ao certo se era boato, o quanto era verdade, estamos falando do início da década de 70, os meios de comunicação não eram tão velozes, num primeiro momento não sabiam exatamente os nomes dos que sobreviveram.
É muito forte escutar os relatos das famílias sobre esse essas horas, ouvir como eles se sentiram durante esses 72 dias e o renascimento da esperança, a angústia da espera, de saber se o nome do filho estava na lista, se estavam voltando para casa e posteriormente a sabedoria para receber esses meninos e assimilar o turbilhão de emoções que se davam a todo instante. Os meninos chegaram a tempo de passar o Natal em família.
Por muito tempo todos eles fizeram um pacto de silêncio em memória e respeito aos companheiros que faleceram nas montanhas, hoje detalhes da tragédia e milagre estão ao nosso alcance em forma de livros, documentários e entrevistas em programas de tv.
Nesse link você pode assistir um dos melhores documentários com relatos dos sobreviventes (não consegui postar o vídeo diretamente no post).