Novo mercado gastronômico em Montevidéu

Um novo mercado gastronômico em Montevidéu.

Mercado gastronomico em Montevideu

O coração acostumado a querer e poder fica todo saltitante quando vê essas novidades. Comida num ambiente moderninho, descolado, instagramável? Os millenial-foodie piram. Favorita, marca a galera, combina de ir.

Manda fotos, bigos. Faz cobertura para o blog, porfa. Porque eu nunca fiz o Viver Uruguay sozinha, as dicas chegavam até pelos colegas de trabalho do maridón que eu nem conhecia: che, está bueno este lugar,  capaz les gusta para compartir... Uma rede de ideias e coisas bonitas que se mantem viva inclusive a distância (para quem chegou agora, estamos fora do país de novo, é a terceira vez que moramos longe, um iô-iô migratório muito nosso).

Falamos todos os dias 'com' o Uruguai através das mensagens da família e amigos que lá ficaram. Me contam sobre o restaurante novo que está buenissimo, da última exposição que mobilizou a cidade, das desavenças políticas até o preço do pimentão vermelho que andava proibitivo nas feiras de rua.

Dessa vez a cobertura completa que rolou no primeiro fim de semana de abertura do Mercado del Inmigrante lá no nosso Instagram foi feita pelo meu cunhado num passeio com a companheira e a sogra. É assim com afeto e colaborações que sempre trabalhamos.

Tô contando intimidades. Mas, calma, os pontos se unem, é que também sou teimosa e insisto em escrever devaneios para leitores de verdade e não palavras chave para aparecer nas buscas das internet (é por isso que na era influencers os textos de blogues parecem iguais).

O Mercado del Inmigrante foi re-inaugurado agora em agosto, ainda está fresquinho. Trata-se de um prédio cheio de história no centro da capital, foi aberto em 1909 e baixo seu teto funcionava um mercadão que abastecia as famílias montevideanas com produtos básicos: carnes, frutas, verduras, etc.

Décadas mais tarde, lá pelos anos 90 o Mercado de la Abundancia, como se chamava originalmente, recebeu o título de Centro Cultural Popular. 

Não o conheci como feira, já conheci com essa áurea decadente, nostálgica, tinha uns locais pingados de comida, outros de artesanato e era ponto de encontro dos amantes do tango.

Em dias de milonga e tango era como entrar numa cena do Woddy Allen, uma especie de meia noite em terras rio platenses que tocava a alma, aquecia o corazón. Gente comum, gente de mais idade, gente jovem também.

Nesses vídeos antigos dá para ver que a iluminação deixava a desejar, ambiente escuro, climatização improvisada, ventiladores trabalhando frenéticos em meio aos passos apurados dos garçons e performáticos dos artistas. Apesar do aspecto um tanto abandonado, era um espaço resistente, de caráter, de música, de vida. 

E também bonito, não à toa o Mercado de la Abundancia integrava o Patrimônio Histórico Nacional, a arquitetura do edifício foi todinha inspirada no Les Halles de Paris, obviamente na construção antiga, o que vemos hoje lá na cidade luz quando digitamos o nome do mercado no Google é outra coisa que não resistiu ao progresso e foi reconstruída com cara de shopping futurista.

Mercado del inmigrante Montevideu
Mercadao em Montevideu

Dias desses lendo um livro do Galeano, fiquei com o trecho que transcrevo a seguir martelando na cabeça, se alinhava à inquietação que sinto quando repenso cidades e iniciativas fora da minha bolha. 

Uma passagem escrita em 1976, uma realidade bastante atual: 

He guardado esos lugares invictos en la memoria, con sus mesitas de madera o mármol, su bullicio de mucha conversación, sombras doradas, aire azuloso de humo, aromas de tabaco y café recién hecho: heroicamente resistieron la invasión del acrílico y la fórmica y al final fueron vencidos. 

Me pergunto se as pessoas que frequentavam o mercado nos últimos 20, 15, 10, 5 anos, se reconhecem hoje nesse espaço novo. Se sentem confortáveis, acolhidas. Se a comida que agora se propõe experiência gastronômica com oferta dos quatro cantos do mundo as abraça. Se essa roupagem nova e preços intimidam ou convidam geral a entrar. Tenho ficado atenta a essas grandes miudezas.

O Mercado del Inmigrante se define como um lugar com história que se renova mantendo sua essência. Na sua origem o projeto das américas foi bem fiel ao modelo parisiense e já de cara observo que a reforma uruguasha foi bem mais feliz ao manter a estética externa do mercado e a estrutura metálica interna tão particular, rica e bela permaneceu em evidência. 

A Sociedad Joven Tango segue presente junto aos novos inquilinos. Alguns artesãos também. Há um pequeno teatro no subsolo e promessas de projetos e parcerias culturais. A praça de comida ficou linda, nessa pegada gourmetizadora dos mercados gastronômicos gringos é verdade, pero com um certo ar vintage e tradicional pincelados pelos detalhes arquitetônicos de antes.

Novo mercado gastronomico em Montevideu
Mercado gastronomico no centro de Montevideu
Mercado gastronomico em Montevideu

Novo mercado gastronomico em Montevideu

Para o roteiro turístico a nova atração se encaixa facilmente, fica ali do ladinho da prefeitura (intendencia em espanhol), entre as ruas San Jose e Aquiles Lanza, no meio do caminho para quem vai ao Palacio Salvo ou Ciudad Vieja. 

Abre todos os dias das 9h às 02, ou seja, dá para combinar com as andanças turísticas da manhã, tarde e noite. Tem lugar para tomar café, uns drinks, almoçar, petiscar ou comer um docinho no fim de tarde. Versátil. E numa cidade cara como Montevidéu, dá para dizer que tem opções com preços competitivos lá dentro.

Com esta proposta, a capital uruguaia amplia seu leque de mercadões, são tantos que vale a pena repassar: tem o tradicionalíssimo Mercado do Porto (o que eu menos gosto, dispenso fácil nos rolês com minhas visitas, sim, polêmica hehe),  o querido Mercado Agrícola (pra mim o que melhor soube renovar e integrar, mistura a comunidade, turistas e moradores de outros bairros, é novo, climatizado e tal, mas tem cara e jeito de mercadão, eu vou tanto para fazer a feira real oficial de carregar sacolas com cebola, banana e batata ou para tomar uma cerveja com pizza).

Mais o bacaninha Mercado Ferrando que já nasceu com essa cara de mercado gastronômico internacional (foi lá onde rolou o primeiro encontrinho do blog no ano passado, e se ainda não tinha ficado claro, eu não tenho problema com mercados gourmet, só tenho mais cuidado para avaliar quando essas propostas se unem a bens coletivos, históricos e tal) e o descoladíssimo Sinergia Design que é espaço de cowork, mentes criativas, eventos, cursos de cozinha, bem gostoso para um happy hour.

Tem ainda o Weik House que acabou de completar 1 ano, é menorzinho, fica no Cordón e poucos turistas brasileiros conhecem (turistas que viajam sem o nosso guia, claro. Compre o seu e viaje melhor).  E outro mercado que não vingou e abafa, não vou comentar porque já atingi o número de tretas potenciais por post hehe. Com seis já dá para fazer uni-duni-tê e ser feliz (spoiler: e na semana que vem já inauguram outro).

Se você já visitou Montevidéu me conta qual mercado foi seu preferido e se está preparando a viagem me diz qual te deixou mais animado para conhecer.

Abraço e até breve! <3


2 comentários

  1. Que bom saber dessa novidade. Estive nesse lugar há 03 anos e estava muito decadente. Fiquei triste por uma construção tão grande ficar, praticamente, jogada às moscas. Entendo sua preocupação com toda essa modernidade que faz perder um pouco da "história" do lugar. Seria maravilhoso alinhar as duas coisas: manter traços originais e reviver o local. Mas do jeito que estava, acho que pouco tempo não ia sobrar história nenhuma, estava realmente deplorável. Obrigada por apresentar o lugar, já anotei para a próxima visita à Montevideo. Bjs

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    1. Obrigada pelo comentário, Carol! :)

      Sim, era evidente que precisava de reparos, mas tb acho importante como cidadãs estarmos atentas, o prédio pertence a prefeitura da cidade, um lugar emblemático que está na memória de muitos moradores, culturalmente rico, isso é muito valioso, intervenções assim também precisam acolher, incluir.

      Eu vejo que existe um cuidado nesse projeto e espero que mantenham as propostas culturais, a tradição do tango, que fomentem coisas bonitas para a comunidade em geral, que misture, apresente, incentive. O MAM consegue fazer isso e tomara o Mercado del Inmigrante também consiga, é tudo muito recente, eu não tenho respostas nem tô achando ruim, nesse texto tô só convidando a observar outras perspectivas, questionar coletivamente só faz bem <3

      Abraço!

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