Viver no Uruguai: Morando em Punta

Já faz um tempo nos instalamos no leste uruguaio e venho ensaiando contar um pouco mais sobre a mudança. Dois anos e uns quebrados vivendo em Punta e ainda processando as alegrias e inquietudes dessa nova realidade. 

Vai ser textão, vai ter mil voltas, aviso de antemão. Não estou trabalhando com fórmulas mágicas sobre a vida no Uruguai - já tem influencer fazendo esse papelão, cês não precisam de mais um - nem objetividade linear, gosto de me perder nas miudezas e contradições humanas. 

E segura aqui de entrada um conselho que se fosse bom não se dava, se vendia: é na subjetividade que a juripoca pia.

Viver no Uruguai

Numa mudança de país devidamente estruturada, é tudo bem trabalhoso, mas ainda assim viável organizar as demandas burocráticas e financeiras: saber previamente sobre documentação, vistos, custo dos serviços, etc. É no emocional que quase não se adverte que a gente derrapa. Já escrevi algo parecido em outros textos e sigo acreditando.

Vivo fora do Brasil há mais de 15 anos, nas trocas com outros imigrantes amigos - e aqui me refiro a um recorte de um grupo que tem o básico atendido e pode fazer escolhas - observo que geralmente o mais difícil é lidar com a saudade, a dúvida do que poderia ter sido em outros caminhos, as próprias vulnerabilidades muitas vezes desconhecidas, o estranhamento e choques culturais, vou desenrolar mais adiante esse tema. 

Passo ao nosso início: chegamos com algumas malas no aeroporto de Carrasco em dezembro de 2023, o resto da mudança vinha pelo mar numa travessia direta - e quase poética - do porto de Barcelona ao porto de Montevidéu. 

Já tinhamos mudado muitas vezes de país, mas era a primeira vez que carregavamos coisas além do que cabia nas nossas malas despachadas. Objetos de valor emocional, eu costumava dizer. Amparados por uma lei nacional que garante isenção de impostos aos cidadãos uruguaios que regressam ao país depois de anos vivendo na gringa, nos animamos. 

O procedimento aparentava ser simples, podendo ser feito diretamente pelo uruguasho adulto da família (sem a necessidade de contratar profissionais). Da teoria à prática tivemos muitas idas e vindas ao porto, parecia prova de gincana liberar o container com nossas tralhas na aduana. 

Pela lei poderiamos ter trazido até um carro, mas quisemos simplificar para espanto geral. Foi como desperdiçar o coringa no começo do carteado, só pode usufruir desse benefício legal uma vez na vida. Importar um carro sem a carga impositiva do Uruguai. Gente, pelo amor das deusas, é tudo lego das crianças, livros subversivos, essas coisinhas e nada mais

Em fevereiro, finalmente, tivemos tudo liberado e na porta da nossa casa alugada em Punta. Olivia nascida no mediterrâneo, agora crescia nas águas do sur.

Nada era novidade, ou pelo menos achavamos que não. Ele uruguaio do norte. Eu apaixonada por estas terras, já com a experiência de muitos anos de vida vivida no Uruguai. O conforto de ler, sentir, entender as entrelinhas - nas dores e delícias. Uma criança montevideana já. Em Montevidéu tinha parido, casado de papel passado, trabalhado, estudado, alugado, não exatamente nessa ordem hehe. Tava fácil, ousei pensar.

A zona de conforto da língua e suas subjetividades: quem já criou filho numa cultura e idioma diferente de ambos progenitores - passamos pela creche na Irlanda, logo pela escola em catalão, idioma que apenas as crianças dominavam, olha que gostoso auxiliar a alfabetização hehe - vai entender a sutileza dos micros perrengues, do óbvio que é tão óbvio para todo mundo - menos para você -  que já nem é dito.

Montevidéu sempre pareceu a escolha lógica, não só nossa, como também de um número expressivo de jovens uruguaios que saem do interior para a capital em busca de estudo e trabalho. 

Algumas décadas antes da nossa vida em família, meu marido já fazia esse movimento: saía de Salto, deixando antes dos 20 anos o quentinho da vida junto à família para estudar em Montevidéu, nunca mais voltou, a vida foi se desenrolando na capital. Como ele, os outros 3 irmãos seguiram esse mesmo fluxo, apenas um deles depois de formado voltou a viver no interior.


E rebobino tanto a fita para contar que muita água passou para a vida no leste hoje ser uma realidade de janeiro a janeiro - e não apenas férias de verão ou refúgio para a aposentadoria.


A pandemia e o trabalho remoto aceleraram essa transição de balneário à cidade com serviços, oportunidades e estrutura para estar o ano inteiro. 

Punta, atualmente, é a escolha de muitas famílias - uruguaias e estrangeiras - que buscam uma vida mais tranquila e conectada com a natureza. 

E, quando falo de estar em contato com a natureza, não é necessariamente estar reverenciando o sol e abraçando árvores todo dia, é sobre o layout da cidade que tem no plano de desenvolvimento urbanístico original bairros jardins, contemplado a unidade do bosque e mar - algumas vezes o plano é derrotado pela especulação imobiliária e poder do dinheiro, mas esse traçado ainda é uma realidade, saindo do paredão de prédios a beira mar, o que se vê para 'dentro' de Punta são ruas muito arborizadas e bairros majoritariamente de casas.  

O processo de crescimento veio acompanhando da criação e/ou ampliação de serviços essenciais como clínicas e escolas, cada vez há mais comércio que funciona todos os meses do ano e com isso mais oportunidades de trabalho, ainda que não se compare à capital.

Nós viemos com a possibilidade de trabalhar remotamente, escolhemos Punta quando poderiamos estar em qualquer outra cidade da União Europeia ou Mercosul. 

Foi uma decisão pensada e repensada, a vida na Catalunha a longo prazo oferecia mais garantias que um retorno ao Uruguai: crianças já adaptadas, documentos em dia, moravamos num apê confortável no nosso bairro favorito em Barcelona, tinhamos formado uma rede de amigos queridos que se faziam família, um acesso muito sedutor a viagens e consumo.

A vida no Uruguai não tinha mais a fantasia própria de quem migra pela primeira vez: sabiamos muito claramente onde o calo apertava para manter a qualidade de vida que buscamos enquanto família. E era nos números, nas contas. 

A maioria das coisas aqui tendem a custar mais ou proporcionalmente terem um peso maior no orçamento doméstico, a lógica das coisas nem sempre se opera - há um fluxo muito próprio do tempo no Uruguai e de como tudo funciona, belo e potente, mas que depende da sua disposição para fluir num ritmo distinto (parece bobo, mas nem todo mundo tá preparado para aceitar outro modus operandi, outra abordagem e pena muito para aprender) - e se consome menos.

O mercado de trabalho é mais limitado, dependendo da área, são poucas as vagas que acompanham o elevado custo de vida sem aperto. 

E aí com tudo isso na mesa, como é que ainda seguimos em frente? Sentindo que toda vez que visitavamos, havia um desejo latente de permanecer, entendendo que no pacote qualidade de vida para a nossa família tinham também fatores que o Uruguai nos entregava e não podiam ser medidos em índices mercadológicos: a memória afetiva dos lugares, das relações.

Punta Ballena nos toca profundamente, não consigo explicar como estar acá - taracá taracá, citando o Jorge, poeta muito mais hábil com as palavras hehe - nos faz bem. 

Gostamos de viver no Uruguai, gostamos da cadência, apesar de eventuais problemáticas. Nos preenchia como nenhuma outra ideia a possibilidade de criar as meninas próximas às nossas raízes, morando aqui eu consigo ir mais vezes a Bahia, é muito mais confortável para minha mãe que tem várias questões com avião nos visitar, vemos sempre a família do meu marido (aniversários, feriados, um que haces che y si nos juntamos este finde, etc).

Nessa fase da vida foi o que nos moveu: proporcionar o encontro da primeira infância da Oli e pre-adolescência da Gabi com a curva dos anos de uma terceira idade ainda ativa e vigorosa dos nossos pais. É o que fazia mais sentido agora. Se vai continuar fazendo depois eu não sei e prefiro até não saber, só quero viver.

Mas, e se não fosse a segurança do trabalho remoto respaldando financeiramente esse movimento, ainda assim teríamos vindo baseado só no amor? Para ser honesta, muito provavelmente não. Talvez esperassemos mais. Já imigramos algumas vezes por pura querência, só com a fé e nossas economias em jogo (quando deixamos o Uruguai e fomos viver na Irlanda sem trabalho garantido, sem conhecidos, e depois de tudo organizadinho na Irlanda um siricotico para ir viver na Espanha). Não estava querendo passar por esse processo de tudo do zero, agarrando oportunidades no dente de novo hehe.

Mesmo entendendo que são momentos distintos - o mercado hoje não é o mesmo de 15 anos atrás, acredito que tenha minimamente melhorado - ficou um trauma de não ter tido boas oportunidades para me desenvolver profissionalmente no meio corporativo no Uruguai. E nossa ideia desde o início foi morar no leste: se já tinha sido complicadita minha experiência prévia com emprego na capital que tem mais oferta, eu não queria pagar para ver aqui em Punta tendo duas crianças.

Chegamos em dezembro, na época mais feliz. Dias longos, praia, encontros, asaditos. Visto assim foi um grande acerto. As crianças passaram semanas de férias e começaram o ano letivo em março, junto com toda a turma. A variedade de escolas bilíngues em Punta é ótima, creches com pedagogia alternativa também há boas opções e os preços me parece que não diferem tanto das grandes capitais brasileiras (para ser justa, normalmente acho que tudo custa entre 15-30% a mais por aqui em comparação ao Brasil, mas não acho que essa média se aplique tanto na educação e saúde privada).

Por segurança das crianças, obviamente não vou compartilhar a escola delas, mas trago outras 3 opções que tivemos boas referências e gostamos bastante das instalações e entrevistas: Woodside, North School, Colegio St Joseph Mary, todas bilíngue em período integral (normalmente fazem inglês pela manhã e a tarde espanhol).  

A mensalidade nas bilíngues que pesquisamos para nossa filha mais velha custava a partir de 26k para primária em turno integral (das 8h às 16h30 ou 17h) - as três que citei ficam acima desse valor inicial, não segui acompanhando depois que escolhemos a nossa, é uma informação que muitas escolas custavam entregar, só depois da entrevista e entendo, embora acho que me pouparia ir num lugar que poderia achar incrível toda a metodologia e estrutura, mas não poderia pagar hehe - e para creche da pequena meio período a partir de 11k (nesse caso não é o programa bilíngue). É comum ter desconto para irmãos - no nosso caso 5% - e para pagamento antes do vencimento - mais 5%.

A rotina foi se estabelecendo muito naturalmente, fomos descobrindo os lugares preferidos para comprar verduras, frutas, comprando moveis e eletrodomésticos para a casa (a loja Divino sempre oferecendo um bom custo x benefício em todas as nossas casas no Uruguai - sempre compramos camas e colchões com eles - e para a casa nova investimos também em outros nomes como Victoriana, Fabrica Italiana, Maria Victoria, Kave Home, Ai Haus, depois da obra poderia passar horas falando de lojas de moveis e design e material de construção), contratando serviços: internet, plano de saúde, segurança para a casa, etc.

Para a saúde, em Punta temos mutualistas diferentes das que conheciamos em Montevidéu: ficamos entre a Mautone e Asistencial Medica, escolhemos essa última e até agora vem nos atendendo bem (o Sanatorio Cantegril tem uma boa estrutura - sanatório é hospital, a primeira vez que me mandaram ao sanatório fiquei levemente confusa - e há pequenas clínicas na região para consultas, única queixa é a demora para conseguir consulta com especialistas, tipo endrocrinologista, coisa de 1 mês e meio ou 2 para conseguir marcar).

O sistema de mutualista difere do plano de saúde que conhecemos no Brasil, onde pagamos uma mensalidade e temos acesso aos médicos conveniados, exames, etc. Aqui pagamos uma cota com um valor acessível e para cada consulta ou exame que precisar paga-se uma taxa (quem trabalha no Uruguai e contribui ao BPS - previdência social - através do Fonasa - fundo nacional de saúde - tem a cobertura médica assegurada, o desconto é feito em folha e o percentual depende do salário e configuração familiar, se tem filho, cônjuge, etc).

No nosso caso, contratamos a mutualista a parte, pagamos 12k para nossa família - ou seja, aproximadamente 375 reais para cada - num plano que não inclui medicamentos, há diferentes coberturas (pelo Fonasa esse valor seria um pouco menos até). 

O custo das taxas varia bastante, no primeiro ano tivemos isenção de consultas e alguns exames, agora pagamos tudo: esse mês, por exemplo, tivemos consulta com pediatra - 498 uyu, consulta medicina general - 186 uyu (sempre mais econômico e mais rápido agendar com o clínico geral, consigo na mesma semana), exame de sangue controle de rotina (tireoide, ferro, etc - também tranquilo agendar, outros exames de imagenologia já tem uma demanda maior de tempo) - 1426 uyu. 

Há meses que não usamos nenhum serviço e outros que temos um incremento nos gastos, então é sempre bom pensar numa reserva extra além do que se paga de cota fixa.

Para a segurança da casa, contratamos o serviço de alarme e câmeras da Prosegur, um gasto que todo mundo que eu conheço que vive em casa no Uruguai acaba pagando. 

Não é tão comum ver muros altos, temos bairros inteiros só com cerca viva e portãozinho baixo de até 1,50m, muitos tem um jardim totalmente aberto para a frente: é o que mais impressiona as nossas visitas do Brasil, como a gente ainda vive 'exposto'. Não é perigoso? Me perguntam. Também quando mostro nossa rotina nos stories é comum questionarem se eu moro num condomínio fechado e não, é um bairro residencial de classe média normal. 

Essas perguntas de segurança acho sempre complexas, de muitas nuances. Não conheço nenhum uruguaio satisfeito com a segurança no país, vivemos um momento crítico no mundo inteiro de declínio social e aqui apesar de ir em outro ritmo, não está com outra tendência. Há bairros com muitas carências - ao contrário do Brasil não está tudo misturado, tem gente que vive uma vida inteira aqui e nunca soube ou passou por esses lugares e termina realmente com uma visão muito recortada da realidade. 

A percepção da violência urbana é crescente e as pessoas, num modo geral, estão incomodadas, no contexto local não tem essa paz toda que os brasileiros sentem, mas tudo também é perspectiva: é comum comparar e relativizar de acordo a própria experiência.

Quando vejo alguém falando que é super seguro, minha primeira reação é gritar pare! Né assim também não, binha. Se for comparar com a realidade da maioria das cidades brasileiras, é compreensível entender o brasileiro que diz se sentir seguro. Mas, existe sim furto, assalto, narcotráfico em ascensão, coisas que não passavam tão descaradamente há poucos anos, à luz do dia. 

Há também bolhas. A última coisa que me passa na cabeça quando saio em Punta é que vão me assaltar no semáforo, que eu preciso entrar no carro estacionado e sair depressa ou que alguém vai tentar roubar meu celular a mão armada na Av. Gorlero (perdeu, chica - não passa com frequência e eu ando muito com a mão mole fazendo registros bonitos - videomaker ela - pela estrada afora). 

Recentemente, saímos a noite e passou 2 caras numa moto, imediatamente me ativou um gatilho que ninguém ao meu redor captou, mesmo eu explicando - e fiquei um tempo pensando na minha reação e a paz da galera que vive sem essa referência (não sei até quando porque já li notícias de motochorro - perco tudo com o nome - que vem a ser ladrão de moto no linguajar popular). 

Em Montevidéu fico bem mais esperta, não dou mole nenhum, há 10 anos dava. A dor do uruguaio médio acho que vem daí, não faz tanto tempo assim a realidade era mais amena. Meus dois centavos de opinião nesse tema polêmico e mudo o disco.
 
A desvantagem da chegada em dezembro foi só o aluguel Se você estiver pensando em se mudar para Punta, venha antes ou depois do verão. Na temporada todo mundo quer dinheiro e os aluguéis são em sua maioria de curta duração e com preços estratosféricos. Como buscavamos imóveis não mobiliados e gostamos de uma dose de aventura e drama hehe, sabíamos que tinhamos uma pequena chance.

Quem está com a propriedade vazia para alugar em dezembro já perdeu o timing de mobiliar e fazer uma grana no verão, ou seja, está mesmo procurando inquilino anual. E foi assim que chegamos a um total de duas casas disponíveis. Pois é, em dezembro só encontramos duas casas que atendiam nossas necessidades de preço, tamanho e localização (tinha que ser 3/4 e achei que tornou a busca mais difícil). 

Não tinha muita margem para não gostar hehe. Ficamos com a casa que contactamos primeiro: um chalet clássico e simpático na região de Pinares, Maldonado, na altura da parada 27 (como curiosidade, Punta del Este tecnicamente começa a partir da parada 16).

Uma zona residencial tranquila e arborizada, no meio do caminho entre o centrinho de Punta del Este e Punta Ballena, do ladinho do centro de Maldonado onde a gente faz os corres da rotina com melhores preços (fábrica de massa artesanal, quitanda, armarinho, loja de material de construção, etc).

A previsão era ficar só um ano enquanto construíamos nossa casa (assinamos um contrato de um ano com possibilidade de renovar por outro mais). Ficamos 2 anos e 3 meses. Porque a vida não é bolinho e ensina hehe. Ontem completamos nosso primeiro mês na casa nova que foi um grande sonho por tanto tempo <3 

Nossa área de pesquisa de aluguel foi entre Punta Ballena - desde o Club del Lago - até Punta del Este (como referência algumas zonas nesse trecho: Solanas, Las Grutas, Piedras del Chileno, Pinares, Cantegril, Aidy Grill, Peninsula, San Rafael).

Fico mais confortável trazendo links para pesquisa - vejam o Mercado Libre Uy, Info Casas, Market Place - porque existem muitas realidades e prioridades, mas sei também que vocês gostam de saber a nossa experiencia e como já saímos, me parece mais ok compartilhar: uma casa de 3 quartos começamos o contrato pagando por mês 55 mil pesos uruguaios, no segundo ano com reajuste foi para 58.  

Era uma boa casa, iluminada, com jardim, garagem coberta e seus bons 25 anos de construída, sem luxos. Uma propriedade mais nova e com características mais modernas (de marcenaria, revestimentos, comodidades) com metragem e localização similar ficaria a partir de 65k. 

Obviamente, há possibilidades mais econômicas (e outras muitíssimo mais caras, condomínios de gente rica, famosa, etc), outros bairros, imóveis de diferentes tamanhos e amenities: se tem vista, se tem elevador ou escada, se tem porteiro 24h, se tem piscina, garagem, academia, salão de festas, etc . Se é bairro privado (condomínios fechados), bairro jardim, propriedades a beira mar. Tudo influencia no preço do aluguel e gastos comunes.

Pessoalmente, acho que tem mais ofertas de apartamentos bem conservados e bem localizados com melhores preços do que casas. Na Peninsula, por exemplo, podemos encontrar apartamentos de 2/4 para alugar a partir de 24k, o lance é encontrar edifícios com gastos comunes razoáveis. 

Fique sempre atento ao custo dos gastos comunes que pode elevar bastante a conta final e também se o aviso se refere a aluguel invernal: os preços são melhores, porém por um período específico que pode ir de março a novembro. 

Se sua escolha for alugar casa, tenha em mente que essa região sofre muito com a umidade e surgiu como um balneário de verão, ou seja, as residências mais antigas foram pensadas para atender uma dinâmica de casa de praia que pode não atender satisfatoriamente os longos meses de frio.

A casa que alugamos era desse jeito, maravilhosa no verão, mas um freezer no inverno (fazia mais frio dentro de casa do que na rua e esse detalhe fazia toda diferença no meu humor por meses hehe). 

Todas as aberturas eram de madeira com vidro simples (para o clima local as opções em alumínio com vidro duplo são bem mais eficientes, as de PVC um upgrade ainda melhor), as frestinhas geladas de vento que entravam arrepiando a alma haha, os vidros que amanheciam todos condensados, a experiência mais próxima de viver como um cogumelo na estufa, pé direito altíssimo - super comum nesses chalet clássicos - que nunca deixava o ambiente uniformemente aquecido, você afastava meio metro da lareira e já ficava frio, o ar condicionado em três cômodos era um recurso caro de manter, a conta de luz vinha só pela misericórdia no inverno!

Na nossa planilha de gastos no segundo ano, já era um acréscimo planificado para as contas de junho a agosto (além do gasto com lenha, Genaro, meu bem). 

Guarde essas dicas de detalhes nas prestações da casa para se atentar na hora que for visitar e escolher, faz uma boa diferença no dia a dia, no futuro cê vai me agradecer hehe! <3

E foram nesses meses de frio e humor duvidoso que a sofrência chegou: eu precisei me adaptar a Punta, encontrar minhas ferramentas de escape e equilíbrio. Nunca tive medo de frio, nunca foi um problema em Montevidéu nem nas outras cidades que vivi, nem mesmo em Dublin com um inverno de pouca luz onde se fazia noite às 15h da tarde. E eu precisei elaborar o que tava acontecendo. A sazonalidade de Punta, a beleza dos ciclos, a quietude profunda. 

Não era só o clima (nem a casa termicamente desconfortável), era a falta de distração. O inverno nas capitais não alteravam significativamente o fluxo, o burburinho, o consumo. A vida segue acontecendo cinza, no caos. Maré de gente, realidades conflitantes, bulício. Show, museu, teatro, happy hour depois do trabalho. Dopamina facilmente ao alcance (eu tava sempre ocupada e com ruído demais ao redor para ouvir meus ecos tão presentes - a terapia em dia, amiga? Hehe).

Punta vive um auge em janeiro e de repente as pessoas vão desaparecendo. Nós, moradores, recebemos com certo alívio. É uma delicia sentir a cidade calmada de volta, nuestra.

Daí passa carnaval, passa semana santa (ou de turismo, pois efetivamente laicos), começa o outono, os dias mais frescos, as folhas caem, o frio desce aperta, o vento corre forte. Tormentas. Mar bravo e baleias. Silêncio. Soledad. Recolhimento natural, no inverno caem todas as capas. Muitas metáforas. Mas, passa. Tudo passa. E floresce. 

Aprendi que há uma diferença enorme entre conhecer bem, visitar muitas vezes e viver. Tem coisa que só o tempo e a rotina faz. Eu achava que conhecia Punta, só conheci mesmo nesses últimos 2 anos e nos dias que atravesso a interbalneária de céu celeste e a praia mansa bem mansa,  sinto que o coração fica em festa. E eu queria mesmo estar acá <3

*

Ficou um textão, mas se repararem direito, tem dicas hehe. Falei de bairros para morar em Punta, de escolas privadas para as crianças, de assistência médica, de lojas para comprar moveis (tudo na perspectiva de escolhas que faria para minha família, sempre há outras opções e pontos de vista), sites para pesquisar alugueis, etc. O básico para iniciar pesquisas. 

Trouxe também números dessa nossa realidade mesmo sendo reticente, achei importante porque tenho visto de novo uma onda crescente de interesse em viver no Uruguai, dessa vez muito guiada pelas redes sociais (onde passamos grande parte do tempo e não conseguimos ficar concentrados por mais de 15 segundos sem rolar a tela, socorro). Salvo quando falo em reais, todos os preços com k estão em uyu (pesos uruguaios - e quanto é isso em reais o Google converte em segundos).

Tem muita gente acreditando num estilo de vida no Uruguai que é um recorte grande e caro, como se fosse algo uniforme e acessível. Eu tenho responsabilidade no meu conteúdo, poderia facilmente fazer um personagem que cai nas graças da internet e algoritmo. Poderia mostrar a vida no Uruguai de uma maneira que engaja melhor, mas não vou.

Há mais de 14 anos escrevo sobre as vivências no Uruguai, falar de viagens e vida no exterior tendo consciência de classe e raça é um desafio, o desejo não se desperta com coerência, ponderações, é preciso vender uma ilusão se o objetivo é ter alcance amplo - e todo mundo quer ser ouvido hehe, fica ali uma dualidade entre dançar - penosamente literal - a dança do algoritmo ou ser fiel ao que acredita.

Tenho sido fiel e tenho estado cansada. Se você chegou até aqui, me conta? Uma carta, uma palavra de amor. Para renovar as esperanças na escrita humana  <3

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