Conhecendo o Palácio Salvo

As visitas guiadas no Palácio Salvo começaram há pouco mais de um ano, na época até escrevi esse post contando a novidade.

Mas entre trabalhos, gravidez e nascimento da bebê, só agora consegui fazer a visita e já digo que amei a experiência, foi incrível a sensação de estar no topo do edifício, ver a cidade lá de cima e conhecer novas histórias e personagens.

Tinha ido no Centro resolver umas coisas, terminei tudo ainda cedo e aproveitei que era dia de visita no Salvo para turistar.

Visita guiada no Palacio Salvo

Fui sozinha mesmo, cheguei na recepção do prédio, paguei os 200 pesos do passeio e fiquei esperando o grupo se formar segurando minhas sacolas e lamentando a falta da câmera, o dia estava especialmente lindo, mas né? Ninguém vai pagar contas e comprar bugingangas coloridas para aniversário de criança com uma câmera na bolsa rs (as fotos desse post foram todas feitas com o celular).

O guia se apresentou às 16h e começamos o tour, éramos umas 16 pessoas, apenas 3 não eram brasileiros. 

Não sabia se contava detalhes, mas achei que valia uns spoilers porque percebi que muita gente não entendia o que o guia falava em espanhol, o que gerava uma certa impaciência em alguns participantes que só queriam tirar fotos no mirante. Uma senhora interrompeu o guia 3 vezes para alertá-lo que quando chegássemos no terraço já estaria escuro.

Vá preparado para 2h de visita (ainda que vendam como 90 minutos, dura um pouco mais) e controle a ansiedade, chega-se no mirante apenas no final do passeio, nos últimos 30 minutos. 

O que acontece nos outros 60-90 minutos é uma viagem no tempo, começamos com um breve relato sobre a família Salvo, imigrantes italianos da região da Liguria que chegaram em Montevidéu e fizeram uma verdadeira fortuna inicialmente trabalhando no ramo de confecções.

Os negócios da família se diversificaram e surgiu o projeto do Palácio Salvo, a ideia original era construir o primeiro arranha céu da cidade, um ícone arquitetônico para ficar na história e ser um símbolo de agradecimento ao lugar que os acolheu e tantas oportunidades lhes ofereceram, e pelo lado econômico funcionaria como um hotel.

A realidade foi que apenas uma mínima parte do prédio funcionou como hotel, os demais espaços tiveram outros fins.

Para a construção foi aberto um concurso onde vários arquitetos se apresentaram, o mais bacana é ver imagens dos 18 projetos selecionados. O concurso não teve um vencedor declarado, mas tempos depois os Salvo chamaram o jovem arquiteto Mario Palanti, também italiano que vivia em Buenos Aires e já tinha desenhado o Palacio Barolo, para assinar o projeto da família.

Mario Palanti é outro personagem das histórias rio platenses,  construiu dois edifícios emblemáticos que retratam a época do apogeu da economia e sociedade uruguaia e argentina, os prédios são chamados de irmãos gêmeos, ambos tinham faróis que no imaginário do arquiteto se 'comunicariam', ele esperava que as luzes cruzassem todo o rio que separa as capitais e se encontrassem, pela curvatura da terra essa comunicação resultou inviável.

O farol do Barolo segue lá, já o do Salvo desapareceu, conta-se que não teve autorização para funcionar, pois confundiria os navios do porto. 

O Barolo foi inspirado na Divina Comedia de Dante e atualmente se mantém melhor conservado, no Salvo existe uma realidade bem diferente, há uma grande mescla de tudo, de salas comerciais e apartamentos, no interior do edifício funciona a tradicional rádio nacional, um clube de bilhar (achei total cena de filme na hora que abriram uma portinha e vi várias mesas de sinuca com senhores jogando às 17h da tarde de uma terça-feira), há uma gama de vizinhos impossível de unificar ou definir.

Onde hoje funciona um estacionamento, já foi um teatro importante da cidade. Onde existiu o café La Giralda, local onde foi tocado pela primeira vez La Cumparsita, talvez a canção de tango mais conhecida do mundo, é hoje uma loja da Movistar.

O que fazer em Montevideu

Acho complexo fazer uma leitura do que é o Salvo hoje, mas sinto que guarda algo de esplendor dos tempos áureos, mas há também uma atmosfera decadente, vemos roupas penduradas em varais simples contrapondo com vitrais históricos e imponentes.

Lá no Palácio vemos ainda vários elementos esotéricos, místicos e da maçonaria expostos nos detalhes. 

Do lado de fora sob os arcos que dão para a Plaza Independencia encontramos formas marinhas, na passagem que liga a rua Andes e a praça há figuras no piso que supostamente marcam um campo magnético e faz muita gente parar no centro para receber boas vibrações, no hall de cada piso vemos figuras com o número 8 e flor de lis.

Visita guiada no Palacio Salvo

Visita guiada no Palacio Salvo

Visita guiada no Palacio Salvo

Outra história curiosa é a do fantasma do sétimo andar, muitas pessoas juram terem visto em várias oportunidades um senhor bem vestido de preto, ao que parece é um fantasminha camarada que já salvou os vizinhos de assaltos.

Acreditam que seria o fantasma do José Salvo, um dos três irmãos Salvo que inclusive nunca moraram no edifício. 

Ele teve uma morte trágica, tinha uma filha com necessidades especiais que se apaixonou/foi seduzida pelo galã interesseiro do bairro, um boêmio que só queria saber de gastar a fortuna da família, conta-se que deu de presente um fino chalé a Carlos Gardel de quem era admirador, não contente com a gastança do dinheiro alheio, encomendou o assassinato do sogro, que morreu atropelado.

Há muitas lendas que circulam pelos corredores estreitos do enorme prédio, alguns parecem labirintos e contribuem para alimentar esses contos.

Depois de conhecer várias curiosidades chegamos no terraço, é a coisa mais linda ver a cidade com as cores do entardecer, a perspectiva da Plaza Independencia, do Rio de la Plata, porto e Avenida 18 de Julio lá de cima é simplesmente sensacional.

Visita guiada no Palacio Salvo

Visita guiada no Palacio Salvo


E em seguida subimos para o mirante do vigésimo quarto andar que fica na cúpula direita da torre (de quem olha no sentido da praça para a 18 de Julio) e assim terminamos a visita com chave de ouro: um passeio imperdível de verdade!

Visita guiada no Palacio Salvo
Visita guiada no Palacio Salvo

As visitas acontecem toda terça e quinta-feira às 16h. E também em sábados aleatórios de cada mês, não tem datas fixas, tem que entrar na página do grupo que organiza as visitas para conferir a programação.

Para anotar no roteiro de viagem! ;)

Abraço!

6 comentários

  1. Oi Jamille, fiquei muito feliz de ter encontrado informações sobre Palácio Salvo. Sempre achei um dos edifícios mais impressionantes que já vi. Tenho tansa boas memórias do Uruguai. Na infância, sempre passava férias ai com meus pais. Íamos de carro, de Porto Alegre a Montevideo. Hoje, a decadência tomou conta de todos os lugares. Nem se compara com o que era, uma Europa na América do Sul. Te confesso que sinto tristeza em visitar a cidade e não encontrar mais aquela Montevideo que me encantava na infância. Só tenho nas minhas memórias. Laura

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    1. Oi Laura! Muito obrigada pela visita!
      São outros tempos, né? Eu acho que Montevideo preserva muita coisa do seu passado, poderia estar melhor, é certo, mas ainda há tanta beleza...

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  2. A visita é realmente incrível. Aqueles senhores jogando bilhar,naquele ambiente abafado,me pareceu cena de filme,surreal.A vista é sensacional.Uma pena estar tão detonado no seu interior.Imperdível!!

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    1. Verdade, Adriano. Me senti num filme também rs. E lamentável o descuido...

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  3. Acho que você não deveria recomendar a visita ao Palácio Salvo, primeiro porque não é um Palácio e sim um edifício comum com moradores e prédio comercial, depois porque a visita é bem demorada e o turista não gosta de ficar escutando histórias sem importância e depois porque é um prédio feio. Eu posso falar isso com muita segurança porque conheço 20 países e 100 cidades pelo mundo. Sugiro que não recomende para poupar o tempo das pessoas com atrações mais significativas.

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    1. E eu acho que existe muita gente com interesses bem diferentes no mundo.
      Talvez você não tenha lido todo o texto porque não é uma recomendação cega ou vazia, no conteúdo digo claramente o que acontece na visita, o que funciona no prédio e o tempo que leva, por exemplo. Daí cada pessoa pode avaliar se é o tipo de atração que deseja conhecer ou não, seria no mínimo prepotência sair julgando o que seria importante para todo mundo baseada unicamente nos meus gostos, independente da quantidade de países (que foram muitos) tenha visitado na vida.

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