Vi essas fotos no arquivo do marido e pedi na hora para compartilhar num carrossel bonito lá no Instagram, não atualizava o feed há semanas. Ele consegue captar a sutileza da beleza do cotidiano com facilidade, mas fazia tempo não levava a máquina para passear, coitada hehe.
Nossos dias tem sido corridos e enquanto via as imagens, fiquei desenrolando com as vozes da minha cabeça a tal da beleza quando dá tempo de ver, quando há pausas para perder el tiempo e a rotina automatizada não engole tudo.
As fotos me lembraram o que não andava vendo, apressada que estava no meu caminho. Ranzinza com o clima mesmo sendo partidária da sabedoria popular que ensina: al mal tiempo buena cara. Insisisti em contrariar com a cara de cul0, vejam vocês.
As fotos me lembraram o que não andava vendo, apressada que estava no meu caminho. Ranzinza com o clima mesmo sendo partidária da sabedoria popular que ensina: al mal tiempo buena cara. Insisisti em contrariar com a cara de cul0, vejam vocês.
As manhãs que iniciam com o dobro de cuidado na estrada, pouca visibilidade, pista molhada. Carrega menina, sombrinha (do baianês guarda-chuva), lancheira, mochila, estaciona em fila dupla, dias de chuva nunca tem onde estacionar direito, liga o pisca alerta. Do carro e da mente. Outro dia igual. E mais um: abre a cortina, não se vê nada para fora da janela, os vidros condensados. Umidade no talo, o aplicativo avisa quase 100%. Tem sido um inverno particularmente úmido, para além do habitual, só dá esse tema nas conversas de elevador.
Recentemente algumas das nossas paredes apareceram mofadas. As paredes da casa nova que ficou pronta no final de março, cê acredita?! Com vidro duplo, upgrade nas aberturas de pvc, sistema de steel framing para maior eficiência térmica, a casa projetada para bater sol - quando há sol, rá! - de janeiro a janeiro, mas o clima safado, implacável. Se nem a casa aguentou, imagina eu hehe. Agrega outra pendência no corre habitual da dinâmica familiar: comprar produto, passar produto, ventilar tudo.
E leva menina, pega menina, faz reunião, faz exame, faz mercado, faz comida. Agosto já, a essa altura o humor fica facilmente enviesado. Não tava tendo poesia (sem tempo, irmã!), só o modo automático dos dias. E nossa mudança para o leste foi pautada na ilusão e desejo de viver os dias mais desacelerados, a versão possível que encontramos de morar no mato. Não propriamente no mato, uma iniciação talvez, algo distante pero no mucho, ali a 20min do centrinho da cidade, mas fato é que temos mais árvores que construções ao redor e para quem viveu a vida inteira em grandes capitais, apartamentos, foi uma mudança considerável.
Daí que nem vivendo no mato e tendo essa cabecita pisciana que se perde - e se emociona - com absolutamente qualquer aleatoriedade, foi suficiente para esquivar de andar amarga hehe. Queria o sol de volta para já, o calor, a leveza de sair com uma camada só de roupa, pisar descalça. Mar'todo inverno isso, essa menina. Muy adaptada ao Uruguai (e seus invernos úmidos, supostamente hehe), sempre muy mística da natureza dos ciclos até que a casca cai. Dizem que o inverno se presta pra isso: mergulhos profundos.
Podia dizer que ainda me pega de surpresa, mas a verdade é que não teria como evitar o desalinho. Vem junto com o viver. Uma hora a gente conecta os pontos. Lembra - ou é lembrada - que é preciso voltar a caçar belezas, se atentar às miudezas que recheiam e carregam de sentido os dias apesar de.
Os dias por aqui seguem cinzas, as vezes brancos, inundados de névoa ou neblina. Misteriosos, dramáticos. Dias que remexem a gente e o mar. Hoje voltava para casa escutando o rádio no carro e o locutor comentava a previsão do tempo - é um esporte coletivo acompanhar as intempéries hehe, os uruguashos também reclamam do climinha mais ou menos, do frio, do vento e tudo mais - e achei bonito quando ele narrou a paisagem que via, casualmente - ou não - a mesma que eu via, ainda que em outro ponto da praia: hay viento y oleaje, sin la habitual mansedumbre también se ve hermoso, no?
Não pude deixar de concordar. E perceber que mansedumbre era uma das minhas palavras preferidas em espanhol: gosto da fonética, do movimento que a boca faz para cantá-la. Gosto da mansidão e do contrário dela. Pela janela via as ondas batendo na Mansa que se fazia de Brava. Um sorrisinho de canto de boca, cúmplice, era um pouco da gente, um pouco das águas. Ora mansa, ora brava, a beleza nos contrastes... e eu tava vendo <3
Vejam também esses registros bonitos de Punta del Este e arredores em dias de inverno com neblina. O omi é talentoso com as lentes, né? Tem imagem que parece até quadro! O Uruguai sendo belo o ano inteiro...
Vejam também esses registros bonitos de Punta del Este e arredores em dias de inverno com neblina. O omi é talentoso com as lentes, né? Tem imagem que parece até quadro! O Uruguai sendo belo o ano inteiro...


